“O crime foi cometido em frente às câmeras de aparelho celular, em plena luz do dia”
Tão grave quanto o assassinato de um cidadão em pleno gozo de todos os seus direitos, perversidade cometida por Policiais Rodoviários Federais de serviço em Sergipe, foi o comunicado distribuído pela Superintendência local, a fim de relatar o ocorrido. Segundo o documento rubricado pela assessoria de comunicação da PRF/SE, a morte de Genivaldo de Jesus Santos decorreu de mal súbito.
O documento é um escárnio. Ao contrário do que afirma a PRF/SE, a fim de acobertar os criminosos responsáveis pela tortura e o assassinato cruel de um pai de família, o Instituto Médico Legal constatou a morte por asfixia. Não bastasse o laudo médico, contudo, há também as imagens em vídeo realizadas pela população, surpreendida pelo absurdo. O crime foi cometido em frente às câmeras de aparelho celular, em plena luz do dia.
O episódio, em si, fala mal de toda a corporação, desde a abordagem injustificada, até o procedimento adotado pelos policiais – alheios aos protestos e as advertências das testemunhas, como se agissem por força do hábito, obedientes a uma rotina. De pouco adiantou a informação de que o homem imobilizado como um animal feroz fazia uso de medicamentos controlados, era um portador de deficiência mental. Sem mais, nem menos, os assassinos acharam por bem trancafiá-lo na mala de uma viatura tomada por gás de pimenta e gás lacrimogêneo, até ele perder a consciência.
A tranquilidade com que os policiais sergipanos se comportaram diz algo sobre eles próprios, mas também evidencia a cultura da morte, em voga nos quartéis e delegacias de polícia, Brasil afora. O elevado índice de letalidade policial observado no país sugere uma licença extra-oficial para matar, como se a farda isentasse o profissional a serviço da segurança pública de qualquer responsabilidade sobre os próprios atos. Não é assim, entretanto. A Superintendência da Polícia Rodoviária em Sergipe deveria ser a primeira a cobrar a apuração do episódio e a eventual condenação dos criminosos em seus quadros.


