A era dos medíocres

* José Eloízio da Costa

 

Uma recomendação bibliográfica para entender a barbárie em curso no Brasil e traduzida em português, é o Homem Medíocre, do argentino José Ingenieros. Escrito no ano de 1910, a obra é o espelho perfeito do nosso tempo. A marca perseguida pelo autor é o perfil do homem medíocre, um ser desprovido de ideias, imaginação, criatividade e conformado com uma zona de conforto alienante, que o impede de entender o complexo mundo em que vivemos. Sem dúvida que a crise do neoliberalismo, a perversidade das políticas de austeridade e o advento do fascismo como seu maior produto, produziu a emergência de um ser abominável que se orgulha de sua vulgaridade: o homem medíocre.
Na política a questão do homem medíocre de nossos dias, para o Brasil, é o corolário da estupidez e da ignorância como qualidades inquestionáveis desses novos seres que saíram da lama e agora ditam as regras do mundo da política. A morte do pensamento, o caos mental, a ausência de conhecimento, o ódio à leitura e as Universidades; são processos que preenchem o nosso cotidiano. Naturalizamos o absurdo, e a tendência é piorar. É a vitória da insensatez e da irracionalidade. O sistema do capital criou sua cobra sucuri. Será engolido logo, logo, em longo processo de digestão, bem dolorosa; formada por guerras, fome e extermínio de povos. O medíocre tem relação intrínseca com o fascismo. Não tem nenhum compromisso moral e de respeito ao diferente, para ele, a história não existe. Alimentam-se da desorganização social, do hiperindividualismo, da miséria e da destruição do ser humano, enquadrando-o como subhumano. É a escória da humanidade criada nas trevas e que vive em nosso meio com deboche, cinismo e hipocrisia.
Por outro lado, o homem medíocre brasileiro, além dessas qualidades abjetas, tem suas particularidades horrorosas, oriunda da infâmia, da falsidade e do prazer sádico em deliciar-se com a dor alheia. E isso pode resumir-se ao ser diabólico que emergiu das profundezas do inferno verde amarelo: a figura medíocre do bolsonarista. Agora estar em evidência, com seus vícios e qualidades mais sórdidas da natureza humana, e… ganhando eleições. Provando-se que o sistema político brasileiro será transformado em mediocracia, como nas palavras de Ingenieros, e a multidão que os segue aplaudirão na direção do matadouro da barbárie capitalista. Que particularidades seriam essas?
Antes, vamos colocar dois quadros internacionais da incompetência como marca do ser medíocre. Primeiro os dois candidatos americanos às próximas eleições, em que temos a impressão que estes dois atores são incapazes de entender as reais transformações do mundo e vivem em uma bolha já furada do império em declínio. E o segundo, da irracionalidade do gabinete de guerra de Israel, formado por psicopatas talmúdicos (como afirma Pepe Escobar) que insistem em uma guerra genocida como se não tivesse amanhã e a ocupação sionista pudesse ter um minuto de paz daqui para frente. Dois exemplos da irracionalidade formada por incompetentes, claro, medíocres.
Mas vamos as particularidades do homem medíocre de nossos dias no país. Por exemplo, o bolsonarismo representa a figura nacionaleira da mediocridade, porém no fundo são piores que os medíocres são imbecis. Misturam ódio com burrice e se orgulham isso. Seu maior alimento é o anti-petismo. Para eles, o petismo é o diabo na terra e eles precisam de inimigos para dar sentido a vida, quando na verdade eles são desprovidos de capacidade intelectual até para entender isso. Agasalhados em chavões repetidos id infinitum (Luladrão, esquerdalha, ex-presidiário, etc), o imbecil bolsonarista,  quando político, passa a ser medíocre em suas palavras e ações. E a manada de imbecis o seguem cegamente. Essa é a mediocracia que incorpora outra característica: a destruição das instituições e com ele, o Estado. Daí o interesse em fechar o STF e se apropriar do poder para destruí-lo por dentro, inclusive com muita corrupção. Para o medíocre bolsonarista o céu é o limite e a tal liberdade de expressão é a “expressão” da irracionalidade inconsequente. Este é o resultado da crise do capitalismo em sua fase terminal e do advento inexorável da barbárie.
Vamos ao nosso exemplo da mediocridade política sergipana. Nunca estivemos tão baixo na política em todos os aspectos. O interior do estado dispensa comentários, até porque os representantes políticos ainda estão na idade da pedra e seus eleitores há milhares de anos são incapazes de entender o que significa atitude ou ação republicana. Vendem seus votos sem pudor, quem paga mais leva, em uma imoralidade sem limites.
Agora em Aracaju chegamos ao subsolo da política com um candidato, ou melhor candidatas, com um nível de mediocridade de doer até a alma. A reduzida cultura política, a pobreza vernacular, a esterilidade das propostas e o cinismo estampado em seus rostos angelicais (claro, das candidatas, exceto das candidatas do campo progressista), forçam a ter saudades de lideranças do passado mais recente, como Marcelo Deda ou até de políticos de direita, mas que tinham atitudes respeitáveis, como era o caso de João Alves Filho, mesmo com suas falhas e limites.
O segundo turno será o corolário de uma dupla medíocre, insossa, sem graça, que não oferece nada de genial. O candidato do atual prefeito e governador até mostra grandeza pela competência enquanto técnico na medida em que muitas obras na cidade passaram por suas mãos, mostrando qualidades, mas falta-lhe carisma e discurso, mostrando a todo tempo insegurança, muitas vezes beirando a chatice. Já a candidata da extrema direita, com apoio da categoria reacionária dos policiais e do ultraconservadorismo neopentecostal, mostra que incorpora o que existe de mais medíocre na política. Sem lastro político, acompanhada de um jornalista de limitações cognitivas, dotada de um discurso populista-messiânico, com propostas vazias, e que, olhando nos seus olhos, percebe-se a vacuidade para futuramente tomar decisões políticas firmes. O que demonstra que será facilmente manipulável, quando sabemos que temos algumas cobras por trás a quem o apoia. Este quadro da extrema direita sergipana é o símbolo da mediocridade e que certamente deliciará, como demonstrado por Ingenieros, com sua vitória como meros roedores da glória. Depois virá a podridão, afinal medíocre não deixa legado. Tanto um como outro, a perspectiva é sombria para uma cidade que sempre depositei como cidade progressista. Me enganei, não passa de uma cidade de dementes que circulam a cidade como zumbis.

* José Eloízio da Costa, professor do Departamento de Geografia da UFS

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