Saumíneo Nascimento
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Poucos fenômenos acompanharam tão profundamente a história da humanidade quanto a fome. Durante a maior parte da existência humana, conseguir alimento suficiente para sobreviver constituiu uma tarefa diária e incerta. Secas, enchentes, pragas, guerras, doenças, baixa produtividade agrícola, dificuldades de transporte e, sobretudo, a pobreza e a desigualdade determinaram quem poderia comer e quem estaria condenado à privação.
A história da humanidade, entretanto, também pode ser contada como a história de uma extraordinária redução da fome. A agricultura, a domesticação de animais, as técnicas de irrigação, os sistemas de armazenamento, a expansão do comércio, a Revolução Industrial, a mecanização agrícola, a ciência, os fertilizantes, a melhoria das sementes, a vacinação, o saneamento, as políticas sociais e a cooperação internacional transformaram radicalmente a capacidade humana de produzir e distribuir alimentos.
Isso não significa que a fome tenha sido eliminada. Ao contrário: o paradoxo do século XXI é que a humanidade possui uma capacidade de produção de alimentos incomparavelmente superior à de qualquer época anterior, mas centenas de milhões de pessoas ainda não conseguem obter alimentação suficiente.
A história mostra, portanto, uma transformação fundamental, pois a fome deixou progressivamente de ser apenas um problema de escassez física de alimentos e passou a ser também e em muitos casos principalmente, um problema de acesso, renda, desigualdade, conflito, instituições e direitos.
Durante a Pré-História, grupos humanos dependiam diretamente da disponibilidade de animais, frutas, raízes, sementes e outros alimentos encontrados no ambiente. Uma alteração climática, uma seca prolongada ou a redução da caça podiam comprometer imediatamente a sobrevivência de uma comunidade.
A Revolução Agrícola, iniciada há aproximadamente 10 mil anos, aumentou enormemente a capacidade de produzir alimentos e permitiu o crescimento das populações. Mas a agricultura não eliminou a fome.
Ao contrário, sociedades agrícolas continuaram extremamente vulneráveis a colheitas ruins. Quando uma comunidade dependia de poucos cultivos, uma praga, uma seca ou uma enchente podia provocar escassez generalizada.
Além disso, a existência de alimentos não significava que todos tivessem acesso a eles. A formação de Estados, propriedades, tributos, exércitos e hierarquias sociais criou diferentes níveis de acesso aos recursos.
Assim, desde muito cedo na história, coexistiram abundância para alguns e privação para outros.
Na época de Cristo, o mundo era predominantemente rural. A produtividade agrícola era muito baixa quando comparada à atual e grande parte da população vivia próxima ao nível de subsistência.
Uma família camponesa precisava dedicar parcela significativa de sua produção à própria alimentação, às sementes para a próxima safra, aos animais e aos tributos cobrados pelas autoridades.
A fome também podia ser agravada por guerras, deslocamentos populacionais e sistemas tributários. A capacidade de transportar grandes quantidades de alimentos era limitada, tornando muito mais difícil compensar rapidamente uma safra ruim em determinada região com excedentes de outra.
Não é possível estimar com precisão a porcentagem da população mundial que passava fome naquele período. Porém, o contexto econômico e tecnológico permite concluir que a margem de segurança alimentar era muito pequena para grande parte da população.
Por volta do ano 500, a humanidade continuava essencialmente dependente da agricultura tradicional. Grandes impérios haviam desenvolvido sistemas sofisticados de irrigação, armazenamento e comércio. Roma, por exemplo, possuía uma estrutura relativamente avançada de abastecimento de alimentos. Mesmo assim, epidemias, guerras e crises agrícolas podiam gerar grandes perturbações.
A fome permanecia intimamente ligada à capacidade local de produzir alimentos e à capacidade dos governos de transportar e distribuir estoques.
A ausência de mercados integrados e de tecnologias modernas de conservação fazia com que uma crise regional pudesse rapidamente transformar-se em crise de sobrevivência.
No início do segundo milênio, a população mundial começava a crescer novamente em diversas regiões. Na Europa, a expansão agrícola dos séculos seguintes aumentaria a área cultivada e a produtividade. Na China e em outras partes da Ásia, sistemas agrícolas sofisticados sustentavam populações numerosas. Mas a relação entre população e produção permanecia extremamente delicada.
Quando a produção aumentava, frequentemente a população também crescia. Durante séculos, uma parcela considerável do ganho produtivo era absorvida pelo crescimento populacional. Essa dinâmica seria posteriormente descrita pelo economista inglês Thomas Robert Malthus.
Chegamos ao século XXI diante de uma situação paradoxal. A humanidade nunca produziu tantos alimentos, nunca teve tanta capacidade científica, nunca teve sistemas de transporte tão rápidos e nunca possuiu tanta informação sobre agricultura, nutrição e saúde. E, ainda assim, a fome permanece.

