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A MANGUEIRA


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Publicado em 01 de março de 2024
Por Jornal Do Dia Se


Em memória de José Humberto Silva dos Santos
(Seu Beto)

* Thiago Fragata

Lembro a infância na ladeira do Porto da Banca nos idos de 1980. O nome tava relacionado à palhoça erguida na beira do rio Paramopama, junto ao barraco do Seu Beto, um negro retinto que servia cachaça aos pescadores que ali mesmo, no fim do declive vendia na banca improvisada, à sombra da palha, o fresco pescado.
Simpático, Seu Beto falava e ria despojadamente, mais ria que falava. Tinha filhos, nunca parei para contá-los, mas recordo dos apelidos: Dingo, Joel, Gilza, Nininho, Dédéde, Jane, Josi, Dodge e mais outros. Sua esposa, Dona Nininha, era muito, mas muito gente boa, como se fala no interior. Tinha uma voz doce, de mãezona de todos, inclusive dos vizinhos. O marido era pescador e comerciava pinga no barraco do porto. Ela, dona de casa, arrendava uma mangueira no tempo da manga. Não estou falando de qualquer mangueira, imagine uma árvore que a família pagava a safra ao Sr. Nivaldo e revendia a colheita nas feiras durante 3 ou 4 meses. A cata diária rendia 6 ou 7 carrinhos de mão. A empreitada repetia-se anualmente e chamava minha atenção de menino.
A mangueira de proporções gigantescas intrigava-me. O tamanho fazia de mim um liliputiano, a produção rendia toneladas e enlameava todo o chão à sombra da copa espraiada. A família de Seu Beto, toda ela, se envolvia na cata diária como também vigiava a majestosa árvore. Na ausência dos pais, a melhor maneira de trabalhar para os irmãos Joel e Dingo era brincar ali mesmo. Brincar na lama do fruto, fazer boneco de caroço. Mas tinha a mais divertida e audaciosa das gatimonhas: brincar de manja nos galhos da mangueira. Eu era platéia de pescoço dolorido a observar os exímios malabaristas a correr e pular de galho em galho, rindo, gritando, xingando.
Dia feliz da infância, curtida no sítio de Sr. Nivaldo, que era dono da mercearia e de uma vila de casas. Minha família morava numa destas. Não me lembro dele sorrindo, parecia não gostar muito de crianças apesar de ter filhos. Só mais tarde percebi: aturava a todos porque eram clientes. Sisudo, sua cara amarrada fazia a gente esquecer os mandados; diante dele tremia, pedia leite no lugar do pão e desfazer o mal-entendido custava um sonoro broco! Lerdo!
Mas o preço da manga caia mais do que os frutos, tanto que a família de Seu Beto deixou de arrendar a safra. Descontente com os prejuízos, até hoje não sei o quê poderia fazer do Sr. Nivaldo um homem infeliz – isso porque tinha tudo o que os moradores da ladeira sonhavam. Quer dizer, faltava ser feliz apesar de ter casas, carro, moto, filhos, sítios e a mangueira.
A árvore viçosa teve um triste fim, mesmo dando frutos. Aperreado com as crianças a invadirem sua propriedade rocambolesca, o dono tomou uma drástica decisão. Comprou um poderoso veneno, o que significou um alto investimento. Aplicou no tronco da mangueira e deixou todo mundo sem graça. Isso tudo faz tempo, tanto que o carrasco morreu. Ainda lamento a morte da vítima.

* Thiago Fragata, historiador, escritor, multiartista. Texto do seu livro inédito Cronicário das memórias – São Cristóvão/SE. E-mail: [email protected]

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