* Vânia Azevedo
A mentira é tão velha quanto a história da humanidade, claro: coisa de seres racionais com atitudes irracionais. Afinal, quem nunca se utilizou de uma mentira para se safar de uma situação que teria maiores consequências com ela do que sem ela? Quem não lembra da infância? Ora, mentir e fantasiar é compreensível no universo infantil devido a imaturidade mental. Nessa fase da vida, as mentiras se tornam recorrentes (geralmente movidas pelo medo, ou para fugir das consequências dos próprios atos), com o objetivo de preservar a autoimagem diante dos pais.Mas quando elas passam a ser usadas de forma rotineira e transpõem os muros da infância para tornar-se um hábito, é tão nocivo para o mentiroso quanto para os que convivem com ele; o que nos leva a crer que “a tendência à mentira parece ser perseverante, não é provocada pela situação imediata à pressão social, mas representa uma característica inata da personalidade”.
Não é raro encontrar um desses tipos, muitas vezes na própria família. Assim é o mentiroso compulsivo, que até mesmo para lidar com situações do dia a dia, no trato familiar, engata um repertório de mentiras tão vasto,capaz de impressionar até mesmo àqueles que já o conhecem tão bem.
Incapaz de se perceber um mentiroso compulsivo, acredita-se capaz de tudo, envolve as pessoas com estórias mirabolantes, e assim vai vivendo cada vez mais enroscado no seu mundo singular.Todavia, o mais lamentável é que apesar das vítimas que faz com suas investidas fantasiosas, o indivíduo sempre será a maior vítima de si mesmo. Chegando um momento que já não terá o menor crédito- por conta da conduta antiprofissional que resvala por onde passa -, inviabilizando o futuro profissional que, até sonha, mas é incapaz de construir. Sentir-se vítima de todos para justificar seus insucessos é o modus operandi utilizado, e enquanto a família não se dá conta que lida com uma pessoa que necessita de tratamento, vai envolvendo os familiares, enquanto estes seguem incapazes de reagirem ao fato.
Se a razão da patologia que envolve o mentiroso compulsivo tem origem na sua história de vida baseada em frustrações e fracassos- geralmente são pessoas movidas pela inveja, com fortes indícios de uma formação deturpada -, ele encontra na mentira uma eficiente ferramenta para fantasiar a sua existência e atingir seus objetivos mais escusos.
E se a área de atuação é no âmbito virtual – espaço favorável aos covardes de plantão -, é como jogar penas ao vento, enquanto assiste inalcançável o desespero dos atingidos, saboreia a maldade que alimenta os covardes e seus seguidores; que se contentam com a maldade construída como forma de aplacar a sua pusilanimidade.
Esse é o ambiente propício à política, quando a capacidade do candidato está aquém das qualidades do seu adversário político, se utilizar das mais sórdidas mentiras para ludibriar o eleitorado: ferramenta milenar que já colocou muitos imbecis no poder.
Geralmente as mentiras plantadas nas redes sociais trazem consigo um caráter pervertido e têm exposto particularidades de vidas, deixando evidente o lado fétido do carrasco invisível, auxiliado por aqueles que compartilham a injúria – tão mal caráter quanto -, ajudando o pusilânime a atingir seus objetivos. Quando se dá ibope para o autor da calúnia, o indivíduo torna-se cúmplice, e segue alheio às consequências que o pacote virtual de maldades pode provocar. Em alguns casos, destruindo a vítima ou até mesmo a família. Nesse caso, não se trata de uma mentira inconsequente, mas o extermínio moral de uma pessoa. No âmbito da política, uma mentira nessas proporções pode mudar o rumo de uma eleição e, por consequência, os rumos de uma nação. Como pode criar situações caóticas e despropositadas com o intuito de mobilizar as massas através da manipulação e do discurso vitimizado.
Romper com esse passado asqueroso e substituir as mentiras ocasionais por verdades pontuais não tem hora certa. Uma vez que, é um vício (ou modus operandi dos fracos), e como tal, exige muita disciplina- inclusive ajuda profissional e reiterada determinação para romper com esse princípio. Tem a ver com personalidade, transparência e responsabilidade.
Crescemos acreditando que a mentira nem sempre possui uma consequência negativa associada, principalmente quando se faz da mentira um hábito para transpor as pontes da indecência ética e moral- como normalmente ocorre com o “inocente” trote escolar -,quase sempre visto numa perspectiva lúdica, mas embutido de caráter abusivo e afrontoso. Sim, um inconsequente trote que aterroriza os novatos calouros de universidade, para deleite de jovens pervertidos, travestidos de estudantes compassivos. Na verdade, trata-se de mais uma grande mentira, nesse caso, de nível superior.
* Vânia Azevedo é professora


