Longe da romanticidade do cinema, uma guerra passaria a ser travada entre os dois políticos com relação àquela casa tão bela. De quem teria sido o feito?
*Acrísio Gonçalves de Oliveira
Eram os anos 1950. Santa Luzia do Itanhy queria estrear seu cinema. Queria fazer parte da “Era de Ouro” em que vivia a sétima arte. Então, pensou-se na construção de um cinema. Seria sua Casa de Espetáculo. Seria seu Cineteatro Municipal. Seu Grêmio Municipal. Em 1952 ele estava pronto. Todos os olhares se voltavam para a nova construção. Era bonita. Pomposa. No mesmo ano seria inaugurado pelo prefeito Adelson Silveira Lima, um usineiro. O prefeito antecessor tinha sido Esmeraldo Vieira da Costa, gente de posse. Porém, longe da romanticidade do cinema, uma guerra passaria a ser travada entre os dois políticos com relação àquela casa tão bela. De quem teria sido o feito? (Ver episódio completo em nosso livro SANTA LUZIA DO ITANHY – PRIMÓRDIOS DE SERGIPE, ainda nas livrarias).
A coisa tomou rumo espinhoso depois que Esmeraldo Vieira (o prefeito anterior) resolveu, no final de seu mandato, “colocar uma placa dizendo que havia construído o cinema”. Mas o cinema ainda não funcionava. Estava inconcluso. Assim, Adelson, que tinha assumido a prefeitura, indignado, afirmava com todas as letras que aquela placa não poderia ficar. Teria que ser arrancada! Afinal, Esmeraldo não havia concluído o cinema. Portanto, não tinha razão de ser a existência da tal placa e, por isso, a retirou.
As desavenças dos dois políticos luzienses ganharam as páginas da imprensa. Adelson contestou os recursos que Esmeraldo dizia ter ficado nos cofres da prefeitura. Pra piorar, conforme Adelson Silveira, a sua administração teve que ainda pagar, com os minguados recursos, a última prestação ao empreiteiro da obra. Como de praxe, a maioria dos vereadores apoiaria o novo prefeito.
Outra figura política entraria em cena, o estanciano Adolfo Amado. Um amante das artes. Um envolvido na cultura. Em fins de 1940, fora vereador da cidade e tinha sido projeto seu a construção, o que ele intitularia na imprensa como “casa de diversão”. A casa de “representações teatrais”. A casa das artes “cinematográficas” de Santa Luzia. No entanto, a polêmica sobre o cinema na imprensa não fez menção a ele uma vírgula sequer. Isso o fez reagir contra aqueles que tentavam apagá-lo da história!
Naquele tempo, os luzienses, interessados em cinema tinham que se deslocar até a vizinha Estância, veterana da “sétima arte”. O então vereador Adolfo Amado tinha a intenção de tirar esse suplício dos luzienses de se deslocarem, segundo suas contas, “12 quilômetros” para ver um filme. Orgulhoso, o ex-vereador disse que havia pensado em prol do “crescente progresso do povo que tive a honra de representar”. No final de seu artigo detonou: “Não fora minha pálida ideia e o apoio de meus colegas de administração, caros luzienses, cinema não chegava pra essa terra!”
Seja como for, o cinema em Santa Luzia existiu. Foi sonho realizado. Foi mágico. Embora o trabalho com a cana e o fabrico do açúcar nas usinas ainda fatigassem os trabalhadores, o cinema trouxe um encanto. O novo. Introduziu aquele ilusionismo tão querido no mundo e que agora fazia parte da primordial cidade histórica. Lamentavelmente tudo acabou. O cineteatro, tão capital na cultura luziense – cuja casa se recuperada serviria à arte, a cultura, ao saber popular qualquer – não existe mais. Está sem telhado. Não há mais portas. Nas paredes da frente não consta mais o emblemático nome “Grêmio Municipal”. Isso nos fez lembrar a canção infantil “A Casa”, do poeta Vinicius de Moraes, quando ele começa dizendo: “Era uma casa muito engraçada”. Paremos por aí, pois a letra da canção nesse ponto apenas traduz o que representava a citada Casa de Espetáculo. Porém, a sequência da letra pode ser parafraseada para representar seu estado atual: “Não tem teto, não tem nada”/ “Ninguém pode entrar nela não”. Contudo, sua letra original, perfeitamente nos servirá ainda pra dizer: “Mas era feita com muito esmero”. Enfim, tudo é tão trágico. Se assemelha à morte!
*Acrísio Gonçalves de Oliveira, escritor e pesquisador, professor do Estado e da Rede Pública de Estância


