A frase de Paulo Figueiredo expõe a persistência do machismo na extrema direita e reforça o peso decisivo do voto feminino na disputa política
* Ronaldo Lima Lins
No seu livro Antimemórias, André Malraux narra uma situação intrigante que envolvia o pai e o avô. Este era um homem extraordinário, com contatos na roda intelectual além das fronteiras. Mantinha relações e trocava ideias com Nietzsche. Pois aconteceu que ele, depois de um jantar em família em que afirmara que, podendo optar por uma existência, escolheria aquela que vivera e vivia, sem tirar nem pôr, curiosamente, no dia seguinte, foi encontrado morto no quarto. Suicidara-se. E mais desconcertante!… Deixara um bilhete onde registrara a frase manuscrita: eu não quero ser enterrado religiosamente, só que com o não rasurado a caneta, não o bastante para não ser percebido sob os riscos.
Pouco mais tarde, o pai do escritor, num encontro com um conhecido do avô, enquanto tocavam no assunto, perguntou-se: “Mas, afinal, o que é um homem?” E acrescentou bruscamente, como se pronunciasse o óbvio: “O homem é aquilo que ele faz” – para refletir novamente e concluir: Mas será o homem realmente aquilo que faz? Não será ele apenas uma caixinha de segredos?
Obter definições sobre os homens constitui, sem dúvida, tarefa complexa. Na política, os participantes exibem uma aparência e se escondem atrás dela. Revelam-se, às vezes, de repente, quando menos se espera, através de atos falhos ou de instantes de irritação, quando não se controlam e explodem. É o caso de Paulo Figueiredo, adepto, cabo eleitoral e seguidor de Flávio Bolsonaro, emitindo opiniões sobre as mulheres. Parte de um eleitorado importante, a conquistar, desprezou-as, numa pancada, dizendo que votam mal. Isso para não mencionar a forma abjeta com que se expressou. A declaração soou como um atentado contra os interesses do candidato. Este ainda precisa de votos, muitos votos, para ganhar a disputa com Lula. Foi, no entanto, afirmação reveladora. Há tempos, parece conhecida a repugnância do clã, e do próprio pai, em relação ao gênero feminino. Para a família, as mulheres, incluindo as filhas, não passariam de uma “fraquejada”. Dão a impressão de que não saíram do século XIX (ou antes dele), quando se discutia a participação democrática nos pleitos eleitorais e setores da elite se recusavam a partilhar direitos.
Tornada pública sem pudor, a gravação de Paulo Figueiredo expressou algo que seus companheiros de ideologia não pretendiam explicitar. Brutalidade não cai bem junto a políticos que, por outro lado, querem se exibir ajustados em sua convivência doméstica. O slogan direitista “Deus, pátria e família” se ajusta mal, submetido à liberdade com que aquela gente discorre sobre suas concepções.
Sabe-se que machismo e misoginia priorizam modos de comportamento exclusivistas e discriminatórios. Vão, em certos instantes, do racismo à repugnância pelas mulheres. A psicologia concluiria que tais indivíduos temem a incapacidade de fazer frente à própria masculinidade. Como lembra Eduardo Galeano, “o machismo é o medo dos homens das mulheres sem medo”.
* Ronaldo Lima Lins, escritor e professor emérito da Faculdade de Letras da UFRJ

