Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos
Não é de hoje a ode que se faz à vida, muitas vezes dura, do povo nordestino na música popular brasileira. Nesse sentido, Luiz Gonzaga, certamente, além de pioneiro, segue sendo uma grande referência. Quem é do interior sergipano, como eu, e que tem em sua história uma origem e uma marca identitária ligada à cultura do gado, não tem como não se emocionar com as inúmeras formas de retratar a vida sertaneja, seus personagens e suas histórias.
A morte da compositora e cantora Rita de Cássia calou fundo na alma dos admiradores da cultura nordestina. Vítima de uma fibrose pulmonar, aos 50 anos de idade, deixou um legado expressivo, sobretudo no mundo da música de forró. Foram mais de 500 composições, muitas delas famosas e executadas em nível nacional por bandas e artistas a exemplo de Amelinha, Frank Aguiar, Mastruz com Leite, Catuaba com Amendoin e Aviões do Forró.
Natural do Ceará, no município de Alto Santo (8 de agosto de 1972), Rita de Cássia começou sua carreira no início dos anos 90, estourando em 1993 com a canção “Meu vaqueiro, meu peão”, com a banda Mastruz com Leite, até hoje um grande sucesso não somente nas festas juninas, mas durante todo o ano e também nas plataformas digitais. Chegou ao século XXI, compondo em profusão e também cantando, longe dos holofotes da mídia, mas sempre presente na memória musical do país, sobretudo daquela minha geração, quando, ainda adolescente, descobria os amores e as belezas da vida.
Para além de “Meu vaqueiro, meu peão”, “Príncipe do Nada”, “Anjo de Guarda”, “Barreiras”, “Bichinho de estimação”, “Parabéns meu amor”, “Razões”, “Tatuagem”, entre outras, nada se compara à “Saga de um vaqueiro”, particularmente, a minha favorita até hoje, presente na minha playlist de final de semana, ao sabor de uma gelada e inspiradora cerveja.
Com nove minutos de duração, “A saga de um vaqueiro” teve sua primeira versão gravada pela banda Catuaba com amendoim”, na voz de Neto Leite. Mas, foi com Mastruz com Leite que ela ganhou visibilidade e popularidade. Baseada em fatos reais, Rita de Cássia criou uma obra prima, comparada a “Faroeste Caboclo”, de Renato Russo, com um enredo que envolve, fascina e emociona a quem ouve.
“A saga de um vaqueiro” fala de um amor proibido que teve um desfecho inusitado e feliz, após longos anos. Retrata o carrancismo de uma criação típica do interior nordestino, que já se perde no tempo, mas que também esteve presente em histórias como a de Romeu e Julieta. Um vaqueiro apaixonado por uma moça, cujo pai não aceitava o pretendente da filha e fazia de tudo para separá-los e, em alguns casos, terminando em tragédia.
Eu sei bem o que é isso. Namorei escondido com minha atual esposa alguns anos, pois o pai, meu saudoso e querido sogro, não via futuro em mim: “um molequinho com a bola debaixo do braço”. Eu tinha entre doze e quinze anos de idade. Os apaixonados de “A saga de um vaqueiro” foram separados pela ignorância e pelo tempo, mas reunidos novamente pelo destino numa vaquejada. Mesmo conhecido, não vou dar spoiler ao final feliz da canção. E que belo desfecho!
Seja nas vaquejadas da vida, nos forrós espalhados pelo Brasil e, de modo particular, nas trilhas sonoras dos apaixonados, Rita de Cássia seguirá imortalizada, seu legado e suas canções. Da próxima vez que ouvir “A saga de um vaqueiro”, impossível não lembrar dela. E nas lágrimas que sempre rolam de meu rosto quando ouço essa canção, minha homenagem a ela e ao seu talento estarão ali presentes. Que venha um filme inspirado nessa canção. Fica a dica para os produtores, que não terão dificuldade de alcançar sucesso de bilheteria.


