Além da linha de chegada: o cuidado ortopédico na prática da corrida

*Natanael Sena

A recente Corrida de Aracaju, realizada no último domingo, reuniu milhares de participantes e reforçou um cenário que vem se consolidando nos últimos anos: a corrida de rua deixou de ser uma prática restrita a atletas e passou a integrar o estilo de vida de pessoas de diferentes idades. Embora esse movimento seja positivo do ponto de vista da saúde geral, ele também acende um alerta importante para a saúde ortopédica, especialmente quando a prática ocorre sem orientação adequada.
A corrida é uma atividade de impacto repetitivo. A cada passada, as articulações dos membros inferiores, principalmente tornozelos, quadris e joelhos, absorvem forças que podem chegar a até três vezes o peso corporal. O joelho, em particular, é uma articulação complexa e frequentemente sobrecarregada, sendo um dos locais mais comuns de lesões em corredores amadores.
Entre as queixas mais frequentes estão a síndrome da dor femoropatelar (dor na parte anterior do joelho), tendinites, lesões meniscais e até processos inflamatórios decorrentes de sobrecarga. Na maioria dos casos, essas condições não surgem de forma súbita, mas são resultado de erros de treino, como aumento abrupto de intensidade ou volume, uso de calçados inadequados e ausência de fortalecimento muscular.
É importante destacar que a corrida, por si só, não é prejudicial. Pelo contrário: quando bem orientada, ela traz inúmeros benefícios, como melhora do condicionamento cardiovascular, controle do peso e promoção do bem-estar mental. O problema reside no fato de que, impulsionada pelo caráter “acessível” do esporte, muitas pessoas iniciam a prática sem avaliação prévia ou acompanhamento profissional.
Outro aspecto relevante a destacar é o chamado “modismo esportivo”. A popularização das corridas de rua, impulsionada por redes sociais e eventos de grande porte, pode levar o indivíduo a se desafiar além de seus limites físicos atuais. Participar de provas sem preparo progressivo adequado aumenta significativamente o risco de lesões, especialmente no joelho, que depende de um equilíbrio entre força muscular, alinhamento biomecânico e controle neuromuscular.
Para reduzir riscos, algumas medidas são fundamentais: avaliação médica antes de iniciar a prática, acompanhamento com profissional de educação física, fortalecimento muscular, além de atenção à técnica de corrida e escolha de calçados apropriados. Respeitar o tempo de adaptação do corpo é essencial para garantir evolução segura.
A corrida pode transformar a saúde – ou comprometer articulações quando feita de forma impulsiva. Cuide-se, porque o papo não é sobre acompanhar uma tendência, mas sobre preservar o próprio corpo. Joelhos não seguem modismos, seguem limites. E respeitá-los é o que garante longevidade na prática esportiva.

*Natanael Sena, ortopedista, especialista em cirurgia do joelho e intervenção em dor.

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