Além de capitular, ou, como na linguagem pebolística, pisar na bola, Ancelotti foi perdendo anéis e dedos. Não só aderiu à lambança em torno do menino-Ney, como assumiu de vez um papel de tiozinho simpático, explodindo em anúncios publicitários na TV
* Luciano Correia
Estamos num daqueles raros momentos desse país fracionado em que a pátria inteira calça as chuteiras para torcer para a Seleção Canarinha. Mesmo os que inicialmente resistem a torcer, não conseguem passar do segundo jogo sem cair na fuzarca geral, contagiado por feriados, vuvuzelas e churrascos em volta dos telões. O italiano Carlo Ancelotti é possivelmente o maior treinador que esse time já teve, incluindo aí o treinador-jornalista João Saldanha, que montou a lendária seleção de 70.
Na reta final da escolha dos 26, a discussão foi parar, evidentemente, na dúvida se o “menino” Neymar iria ou não ser convocado. Antes de tecer as conjecturas possíveis, uma observação: como um jogador de 34 anos, que já foi a três Copas do Mundo, ainda aposta na imagem de um menino? Aí tem pauta para os divãs dos analistas, não os esportivos, mas os da psicanálise freudiana. Na verdade, estamos falando de alguém cuja criação ruim impediu que amadurecesse como homem.
Um reizinho mal formado também numa carreira profissional que tinha tudo para ser a mais bem sucedida do mundo, mas que foi desperdiçada pela decisão tomada ainda nos primeiros anos: Neymar não quis ser um profissional do futebol, na acepção e nos protocolos da função. Preferiu, desde sempre, e mal ajudado pelo pai (desde sempre), ser um popstar. Nisso, se deu bem, e não há demais em aceitar sua opção, não fosse o fato de que ele quis ser as duas coisas ao mesmo tempo. Duas coisas incompatíveis.
Como bom popstar, Neymar é praticamente um ex-jogador de futebol, mas a qualidade exibida em campo pelos atuais representantes da Canarinha e o risco de novo vexame fizeram os holofotes se virarem novamente para esse craque aposentado, machucado e cansado, mas ainda capaz de jogadas incríveis. Ancelotti seguramente não o tinha em seus planos, por saber de suas molecagens, no pior sentido do que é ser um moleque, e na capacidade de desagregação de um conjunto.
Sabe-se agora, por variadas fontes, que uma dentre muitas evidências da liderança exercida pelo menino/moleque Neymar, uma delas era o tratamento reverencioso usado por colegas de seleção em copas anteriores: muitos o chamavam de “presidente”. É muita esculhambação para um país que precisa ser sério também no futebol! Ancelotti balançou, tentou ignorá-lo, mas não resistiu aos próprios temores nem ao poderoso lobby vindo de vários lugares: CBF, televisão, Globo, patrocinadores, empresas etc.
Além de capitular, ou, como na linguagem pebolística, pisar na bola, Ancelotti foi perdendo anéis e dedos. Não só aderiu à lambança em torno do menino-Ney, como assumiu de vez um papel de tiozinho simpático, explodindo em anúncios publicitários na TV, vendendo de carros elétricos à cerveja Brahma, exibindo-se numa entrevista quase intimista, olho no olho, tête-à-tête com Renata Vasconcelos e César Tralli, ao vivo no Jornal Nacional.
Apostou todas as fichas e agora só tem uma chance: vencer ou vencer. Se trouxer o caneco do Hexa, vira herói nacional. Vai batizar praças, avenidas e abençoar pretendentes a cargos políticos. Se perder, vira mulambo nacional, calcinado em resenhas esportivas, mesmo com o inegável talento e com o sonho que teve um dia, de que o time verde-amarelo poderia ainda jogar futebol de verdade.
* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS


