Outros pensadores, surgiram, não sei onde, o que fazem, e se estão pensando sistematicamente o Brasil na mesma intensidade, energia e grandeza. O que sei, é que os brasileiros não podem esperar por um projeto para o Brasil, num dia qualquer, do "novo ou velho ano"
* Manoel Moacir Costa Macêdo
No novo ano, irradiam sonhos, profecias e desejos. Tempo estimulante para ir além dos festejos: pensar o Brasil. A democracia acolhe as diferenças e respeito aos vitoriosos. A soberania popular elege os mandatários e projetos de bem-viver para um tempo certo e determinado. Aos vencedores "não fazer o mal, mas fazer o bem".
A "solidariedade social" garantidora da coesão humana, mostra sinais de anomia, a exemplo da polarização ideológica, ódio, insensatez, e intolerância. Retrocessos às garantias e direitos individuais, estão ameaçados. Para os cientistas sociais, isso significa, a "modernidade líquida": pairas sociais, consumismo, egoísmo, horror aos contatos humanos, autonomia dos algoritmos, big data, e idolatria aos shopping centers.
Estamos inseridos em cadeias globais poderosas e independentes dos nossos quereres. O local está interligado ao global, um dependente do outro. Carecemos dos valores pregados numa sociedade forjada pelo sinal da cruz e da santa missa. Violência, fome, desemprego, pobreza e miséria, definem o sobreviver dos pobres e majoritários na arena global. Uma divisão abismal entre "ter e ser". Um consentimento silencioso perante a enorme desigualdade entre ditos irmãos, paridos na mesma pátria. No sentir da metodologia da ciência, não existe uma teoria para o Brasil. Conteúdos fidedignos são esperados, na direção do progresso e da justiça, apartados de opiniões desprovidas de evidências, métodos, e generalizações.
Um projeto para o Brasil, como Estado-nação e soberano, que acolha o rol dos brasileiros, é urgente, e desejado, independente das paixões partidárias, interesses corporativos e seletivos interesses. Não é uma tarefa simples, mas necessária. Não é fácil, mas possível. Não é imediato, mas esperado. Não é inédito, mas conhecido. Não é utópico, mas real. O inverso, poderá ser a ruptura e a desagregação social, indesejável para todos, principalmente os aquinhoados e distinguidos. O Brasil como uma nação, carece de um rumo organizado, consistente e duradouro, que ultrapasse a economia primária-exportadora, numa dependência consentida, ainda que tenha assento entre as dez maiores economias planetárias, mas, persiste nos últimos lugares, na intolerável distribuição da riqueza, na educação, na saúde, segurança e expectativas de viver. A sociedade global, longe da especialização em commodities minerais e agrícolas, está lastrada no conhecimento, na inovação, na informação, no "chip e não no chifre".
A última geração de brasileiros que pensou o Brasil com profundidade, faz mais de meio século. Ela foi parida no contexto da Segunda Guerra Mundial. Tempo de ruptura, "mudança de época", quebra de velhos apetrechos. Próprio para novos arranjos, e renovados mapas mentais. Eles formataram com competência e altruísmo, um conjunto de projetos transdisciplinares, com diagnósticos, métodos, teorias e resultados esperados. Ultrapassaram o tempo e o ambiente hermético da rede científica, para "ir onde o povo estar".
Destaque para Gilberto Freyre, o percursor da sociologia brasileira. Os seus construtos gravitavam "na família extensa da casa-grande, como um espaço integrador da enorme desigualdade", incluindo a utópica democracia racial. Sérgio Buarque atuou no contexto da "cidadania e modernidade" e raízes do Brasil. Caio Prado no entendimento da "economia dinâmica e acelerada modernização industrial". Celso Furtado no subdesenvolvimento de "uma economia dinâmica e acelerada modernização industrial", e nas desigualdades regionais. Ignácio Rangel na "tese da dualidade e no planejamento". Darcy Ribeiro lutou até a morte pela "educação pública e defesa das populações mais fragilizadas". Eles não testemunharam os testes das hipóteses, muito menos os resultados, ao contrário, muitos foram abandonados nos rastros do tempo, e apartados do status quo.
Outros pensadores, surgiram, não sei onde, o que fazem, e se estão pensando sistematicamente o Brasil na mesma intensidade, energia e grandeza. O que sei, é que os brasileiros não podem esperar por um projeto para o Brasil, num dia qualquer, do "novo ou velho ano".
* Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brigthon, Inglaterra


