* Afonso Nascimento
Não nasci aracajuano, me tornei aracajuano. Com efeito, vim ao mundo em Itaporanga D’ajuda, tendo família que morava em Salgado. O meu afeto por Aracaju foi territorializado, primeiro, após viver aqui por cerca de 20 anos. Em seguida, saí daqui por algum tempo, mais tarde voltando e retomando o meu orgulho ser aracajuano. Nessa saída territorializei outros afetos, menores, por outras cidades do Brasil e do exterior
No começo dos anos 1960, desembarquei em Aracaju em busca de uma vida melhor, embora não soubesse disso. Era a visão de meu pai, pois, afinal, essa era a capital econômica, política e cultural de Sergipe. Aqui, primeiro, conquistei o Siqueira Campos, bairro que, segundo minha mãe, era como se fosse uma cidade, pois lá tinha todos os serviços indispensáveis (bancos, supermercados, igreja, etc.). Lá eu tinha o meu próprio time de futebol que era a Portuguesa Esporte Clube, cujo campo ficava a 100 metros de minha casa. Essa “seleção” tinha craques como “Zé Veneno”, “Misael”, “Canhoteiro”. Só depois de sua extinção é que passei a torcer pelo time proletário, ou seja, o temido “Dragão do Bairro Industrial”.
Depois do Siqueira Campos, conheci o centro de Aracaju, onde estava a loja Irmãos Figueiredo usada por meu pai para comprar fiado as roupas masculinas de fim de ano. A praia Formosa é outra lembrança antiga, onde vinha tomar banho de rio e, mais longe, já no oceano Atlântico e na Atalaia, lá estava uma carcaça de um navio afundado na qual a garotada ia pescar siris como diversão. Só precisávamos de uma vara, um cordão e um pedaço de gordura que servia como anzol e isca. Em pouco tempo, algo como uma vasilha estava cheia de siris. As demais partes de Aracaju vieram aos poucos, quando larguei o Costa e Silva e vim estudar no Ginásio de Aplicação.
Naqueles velhos tempos, não sabia que o território de Aracaju era tão pequeno. A cidade começa no Rio do Sal, do lado norte, e vai até o Mosqueiro, no sul. De leste a oeste, sai da ponte do Imperador e vai até a saída de Aracaju. Só isso. Falam muito que Aracaju nasceu como cidade planejada. Não começou como uma feira, por exemplo. E foi muito mal planejada. Entretanto, foi uma vitória de Pirro, o arquiteto que planejou. Não pensou que Aracaju cresceria e atrairia populações. E o que aconteceu? Hoje Aracaju briga por um pedaço de terra que não lhe pertence, mas a São Cristóvão. Foi construída para resolver um problema econômico, que era a necessidade de porto para exportar a produção de açúcar e outros produtos. O problema foi resolvido.
Aracaju tem uma data de nascimento: 17 de março de 1855. A sua paternidade é dada a Joaquim Inácio Barbosa, um bacharel em Direito, membro da burocracia ambulante que governava as províncias a serviço do Imperador Pedro II. Por causa de sua decisão, deixou de ser mais um presidente provincial. Pelo que falam, era um sujeito pardo que gostava de posar para fotografias. Não sei se isso é verdade.
Todavia, Aracaju não nasceu com “fiat” de alguém todo poderoso. Não é assim que cidades são criadas. O processo de sua criação levou tempo e muito trabalho humano. Sem a participação de trabalhadores, de seu suor e de sua força de trabalho, Aracaju não teria entrado no mapa de Sergipe. Isso pede um comentário. Muitas pessoas estão mal-acostumadas a pensar esse processo histórico como obra de elites de Sergipe. Não lembram que Aracaju praticamente não existia 1855. Aparentemente, era um pequeno povoado, cujos moradores viviam da pesca e moravam em precárias cabanas de palha.
Disso resulta poder afirmar que Aracaju sempre foi, de meados do século XIX até hoje, uma cidade de imigrantes. Com efeito, vieram trabalhadores das cidades do interior sergipanos, como pedreiros, carpinteiros, mestres de obras, carroceiros, etc. Como se tratava de período em que ainda existia escravidão sergipana, é possível que poucos ou muitos desses imigrantes eram escravizados trazidos para cá por seus proprietários. A outra parte era composta por trabalhadores assalariados. Foram essas pessoas anônimas, esses candangos, que construíram os edifícios das instituições públicas e as casas de seus moradores e depois passaram a ocupar os seus espaços nas periferias de Aracaju.
Disse que Aracaju é uma cidade de imigrantes. Devo acrescentar, atualizando a conversa, que é também uma cidade de funcionários públicos federais, estaduais e municipais dos poderes da República. São esses três grupos de servidores públicos que também a tornam uma sociedade de classe média. É claro que, ao lado desse grupo numeroso, também vem a sua burguesia comercial, industrial e de serviços, com os seus correspondentes trabalhadores do comércio, da construção civil, dos serviços etc. Posso mudar de assunto?
Gosto de muitas coisas em Aracaju. Sem pretensão de exaurir o assunto, gosto do nome Aracaju (“cajueiro de papagaios”), que não precisa de marketing para vender a cidade. A sua vegetação bem tropical que atravessa o seu litoral, com seus mangues, seus cajueiros, suas mangueiras são de uma beleza rara. Acrescento as garças brancas fazendo seus shows sobre os mangues. As praias fluviais e oceânicas de Aracaju não ficam a dever nada às praias do Caribe. Acho que a população de Aracaju é diversificada e bonita (“o melhor do povo aracajuano”), a qual lembra os personagens anônimos que aparecem nos primeiros trinta minutos do filme “O Agente Secreto”. Adoro o hábito dos aracajuanos de comerem caranguejos, algo delicioso e com função terapêutica. Gosto de seus bairros, suas casas e seus apartamentos que lembram os amores platônicos de minha vida.
Não gosto de observar em Aracaju como as elites tratam mal as classes populares. Não me dava conta disso até que uma mulher burguesa francesa me dizer que “as elites brasileiras não cuidam bem do povão brasileiro”, nos anos 1980. Na primeira viagem que fiz a Aracaju depois de ouvir esse comentário, pude perceber isso em Aracaju. E no meio desse povão me vi e vi a minha própria família. As elites aracajuanas podem modernizar isso e aquilo, importar tecnologias de pontas, etc., mas deixam as classes populares em segundo plano.
A segunda coisa de que não gosto em Aracaju é o fato de ser uma cidade cheia de golpistas. Tem muita gente que odeia a democracia. Também não tinha a menor ideia de que era assim. Fiquei sabendo disso durante aquelas manifestações em frente ao quartel do 28º. BC com muita gente de classe média e do empresariado de Aracaju pedindo que militares interviessem na arena política e levassem o Brasil a uma ditadura. Esse movimento pró ruptura democrática era muito maior nas redes e lá estavam muitos amigos e conhecidos meus. Ninguém foi preso, infelizmente. Quem diria! É essa mesma turma que agora está pedindo uma intervenção estadunidense no Brasil. Sim, essa gente não se emenda.
* Afonso Nascimento, professor de Direito da UFS


