* Cleverton Costa Silva
Como prometido no artigo publicado na edição do dia 3 de outubro, comentam-se aqui os resultados das últimas pesquisas eleitorais, em conjunto com os resultados do 1º turno. A última semana de campanha, de 29 de setembro até 5 de outubro, foi marcada pela ansiedade das(os) candidatas(os), de suas militâncias e de parte significativa do eleitorado.
Naquela semana, sucessão de fatos da campanha se multiplicavam, a exemplo do mais abominável ato de violência e selvageria da campanha, cometido no Conjunto Augusto Franco, na noite do dia 2 de outubro por Flávio da Direita Sergipana, um candidato a vereador bolsonarista do PL, que ao atropelar o militante do PT, Charles Belchior, o forçou a lutar por sua vida agarrado ao capô por cerca de 2Km, nestas condições ter uma perna fraturada numa colisão, até ser atirado ao chão em frente a uma delegacia. Absurdamente, o delegado originalmente responsável pelo caso sequer prendeu o bolsonarista em flagrante.
Diante da situação absurda, o Secretário de Segurança Pública, João Eloy, designou a Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa – DHPP para o inquérito, que por notícias de militantes se sabe que vem sendo conduzido com seriedade. Respeitando-se o devido processo, que a punição venha na seara eleitoral com a anulação dos lamentáveis 1.252 votos dados ao bolsonarista atropelador, e com a cassação de seus direitos políticos; além de sua condenação criminal; e que o bolsonarista seja também responsabilizado civilmente, para indenizar Charles.
De volta ao contexto das pesquisas na última semana, a segunda-feira, ainda no dia 30 de setembro, trazia resultados da pesquisa 100% Cidades, divulgada pela Revista Exame. Foram também publicadas as pesquisas Quaest, no dia 4; Paraná Pesquisas, Gadu e ECM, as três no dia 5. Gadu e ECM foram os únicos institutos locais a terem dados divulgados neste período. Vistas as tendências reveladas pelos institutos, os nacionais apresentaram um padrão radicalmente diferente dos locais. A pesquisa Quaest apontava para um meio-termo.
Considerados os mesmos critérios de arredondamento simples dos artigos anteriores, comparadas as cinco pesquisas, a 100% Cidades e a Paraná Pesquisas apontavam exatos 34% para Emília e exatos 21% para Luiz Roberto; e Yandra com respectivamente 18% e 15%. Danielle, em viés de baixa, e Candisse, em viés de alta, na penúltima semana se mostravam no páreo, mas na última semana pareciam perder força, numa dinâmica inversa à de Luiz Roberto. Na Quaest, a passagem para o 2º turno era incerta entre Luiz Roberto e Yandra.
A pesquisa ECM se mostrou confluente com os institutos nacionais quanto à liderança de Emília Corrêa. Porém, apontava 26% para Yandra, e 15% para Luiz Roberto, e menos de 6% para os demais. Já a pesquisa Gadu se mostrava a mais destoante, comparada às demais. Por ter sido a mais frequente nas duas últimas semanas antes da eleição, vindo a público em 23 e 29 de setembro, assim como em 5 de outubro, esta apontava Emília Corrêa em maior baixa, de 27%. A Gadu também trazia Yandra em leve vantagem contra Candisse Carvalho, tecnicamente empatada em 3º lugar, alimentando as esperanças de que o PT chegasse ao 2º turno.
Com os resultados apurados e divulgados pelo TSE, em números absolutos e também em votos válidos, a eleição majoritária de Aracaju consagrou os institutos nacionais, em termos de “acerto”, ou correspondência entre as amostras das pesquisas e o universo, ou o total dos votantes. Neste sentido, em números arredondados, Emília Corrêa conseguiu 38% dos votos totais. Excluídos brancos e nulos, que totalizaram 8%, a candidata do PL se aproximava dos 42% em votos válidos, um pouco distante da tão propagandeada e desejada vitória em 1º turno. Pode-se especular que 3 ou 4% de indecisos tenham se decidido em cima da hora por quem tinha mais chances de vencer, ou seja, decidiram-se pelo “voto útil”.
Luiz Roberto acabou sendo confirmado como candidato com crescimento mais consistente, vencendo o “governismo rebelado” de Yandra de André e Danielle Garcia. Claramente este foi o candidato que mais se beneficiou da exposição na TV, onde além de apresentado à população pelo Prefeito Edvaldo Nogueira, ficou também associado à participação na gestão nestes quase oito anos e a diversas obras financiadas pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID e Banco dos BRICS – NBD. Assim, seu surpreendente resultado apurado foi de 22% totais, obtendo 24% em votos válidos, dando-lhe o direito a enfrentar um 2º turno muito difícil.
No que se refere às outras candidatas, percebe-se com os resultados que Yandra foi superestimada desde a pré-campanha, sendo sempre a segunda colocada em todas as pesquisas até a segunda quinzena de setembro, quando Luiz Roberto e Candisse de Lula cresciam nas intenções de votos. Se Yandra esperava solapar a base de Emília com os votos bolsonaristas, os resultados mostram que ela pode ter perdido votos por conta do fenômeno do voto útil, frustrando a campanha cara e vistosa que se via nas ruas. Danielle Garcia, com sua candidatura isolada, de fato perdeu seu maior trunfo: o recall de 2020, e dificilmente terá cacife para outras candidaturas majoritárias.
Nas esquerdas, as Federações Brasil da Esperança (PT/PV/PCdoB) e PSOL/REDE amargaram as consequências por não terem chegado a um acordo para formar a frente de esquerda, possivelmente capaz de empolgar as militâncias, e quem sabe ampliar a votação para perto dos 20%. Divididas, as esquerdas tiveram suas campanhas ofuscadas pelo poderio econômico do PL e União Brasil e pelas máquinas municipal e estadual, no momento controladas pelo PDT e PSD.
Ao fim do 1º turno, o PT ficou com a 4ª colocação, com desempenho percentualmente semelhante a 2020 (25.070, 9,55%), apesar de maior votação em números totais (28.049, 9,24%), encerrando uma trajetória iniciada por uma pré-campanha onde PV e PCdoB faziam oposição ao PT basicamente em notas na imprensa, ao invés de reuniões da Federação; além de ver o Ministro Márcio Macedo reabilitar Valadares Filho política e administrativamente em seu gabinete, quando ninguém mais lembrava deste. Além disto o PT teve que testemunhar, em plena campanha, Eliane Aquino desprezar a chapa proporcional do PT e pedir votos para Elber Batalha, do PSB, e para o Dr. Emerson, candidato a Vereador do PCdoB, que aparecia na propaganda eleitoral da Federação com a praguinha do 12, número de Luiz Roberto.
Apesar de tudo, Candisse Carvalho se firmou como liderança que traz um sopro de renovação ao PT, com uma campanha conduzida por jovens lideranças na coordenação e uma chapa de Vereadores(as) petistas de 40% abaixo de 40 anos, contrapondo um mito das redes de que “o PT não se renova”. Nas urnas, o sucesso eleitoral se deu apenas com Camilo Daniel, de 33 anos, que foi o único eleito na Federação, após assumir assento na Câmara em outubro de 2023, com o triste falecimento da Professora Ângela Melo.
Ao fim deste processo, ficou a sensação de que se poderia chegar a resultado bem melhor. Assim, aparentemente o PT paga o preço por não convencer como oposição, e ao mesmo tempo por não conseguir resgatar votos e estruturas político-partidárias que se submetem à salada insossa de partidos, maior parte de direita, que se unem em torno do PDT, já que em 2016 Eliane Aquino era a Vice-Prefeita na chapa vitoriosa de Edvaldo Nogueira; em 2020, após rompimento entre PT e PDT, Márcio Macedo foi adversário de Edvaldo, deu apoio crítico para o 2º turno, e em 2024 fez de tudo para que o PT desse seu tempo de TV, força de militância e outras vantagens ao candidato Luiz Roberto.
Tanta divergência e atos de boicote à candidatura da própria Federação Brasil da Esperança por parte de alguns petistas, pequena parte dos verdes e integrantes do PCdoB, mal compensadas num ato de apoio de Márcio Macedo na carreata petista pela Zona Norte em 29 de setembro, fizeram a primeira experiência eleitoral da Federação soar como uma “profecia autorrealizável” de derrota, evidenciando a necessidade de um rigoroso freio de arrumação neste arranjo político-partidário para os futuros pleitos.
Quanto à Federação PSOL/REDE, como antecipado no artigo de 3 de outubro, Niully de fato contou e se projetou politicamente “com a força de sua chapa proporcional e apoios em movimentos sociais ‘mais radicalizados à esquerda'”, aproximando-se dos 5,52% da Delegada Danielle Garcia, ao conseguir 14.408 votos, percentualmente 4,75%, ampliando a votação do PSOL em 2020, com os 8.352, 3,18% dos votos logrados por Alexis Pedrão, seu vice de chapa neste ano. A chapa de vereadores(as) do PSOL/REDE conseguiu 22.886 votos e reelegeu Breno Garibaldi, a Professora Sônia Meire, elegeu o Professor Iran Barbosa e fez suplentes, onde se pode estimar que 63% dos votantes na chapa proporcional tenham votado fielmente na candidata majoritária psolista.
E mais uma vez foram os institutos 100% Cidades, Quaest e Paraná Pesquisas que captaram este movimento das candidaturas que atingiram entre 5 e 10%, prevendo também que PCO e NOVO não pontuariam, como praticamente se confirmou, de fato. Assim, apesar destes institutos mencionados e alguns outros terem pesquisas para divulgação nesta semana de 13 a 19 de outubro, são as pesquisas da última semana, de 20 a 26 de outubro, que serão as mais visadas, e que mais incitarão a ansiedade antes dos resultados do 2º turno.
* Cleverton Costa Silva é pesquisador


