Rian Santos
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Dependesse de mim, a música de Saulo Ferreira encantaria multidões, cada nova apresentação do guitarrista seria anunciada em manchetes de primeira página. Os músicos do projeto Caminhos Cruzados acertam em cheio, portanto, ao convidar o guitarrista para fazer as honras da casa (ver nesta página).
Não se fala aqui de um músico qualquer. Saulinho é o maior dos instrumentistas desta terra. Pense em um guitarrista estudioso, inspirado, competente. O diminutivo pelo qual os amigos e admiradores evocam o seu nome só é cabível por força de um carinho imenso.
Anos atrás, quando Saulinho foi agraciado com a Ordem do Mérito Cultural, em Brasília, a imprensa local cumpriu a obrigação de comunicar a novidade por todos os meios – papel, bytes, ondas de rádio. Pois esta página volta à carga, sob o pretexto de uma nova apresentação do dito cujo.
Sempre bem acompanhado, Saulinho colocou o dedo em projetos diversos, desde a Maria Scombona e o Ferraro trio, até os duos realizados com o pianista João Ventura. Em toda a sua vasta e rica produção, no entanto, a página assume a predileção por dois registros de sonoridade clara, luminosa – impecáveis.
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Preto no branco – Jazz III (2017)
A honestidade é o maior valor do álbum ‘Preto no branco’, primeiro e caloroso registro do projeto Jazz III. Já não é o caso, como é hábito nesta página, de exaltar a qualidade rascante da gravina – o processo aqui é o de menos. Trata-se, isso sim, de perceber a temperatura irradiando em temas de clareza singular, quando a música vale por si mesma, quente e transparente, despida de qualquer artifício.
Segundo o guitarrista Saulo Ferreira, ‘Preto no branco’ cumpre uma função afetiva, a de documentar o encontro com os parceiros Fábio Cavalieri (baixo) e Bruno Silva (bateria), uma etapa das mais importantes em sua trajetória profissional. Para além das razões e motivações particulares do terceto, entretanto, resta o atestado de excelência da música realizada aqui e agora. A exemplo dos grandes, os caras seguram a onda na unha, sem jamais perder o pulso, amparados exclusivamente pela tarimba de muitos anos dedicados ao ofício, cada um cuidando dos próprios calos.
Saulinho explica ainda que o disco foi gravado “ao vivo”, durante seis horas de estúdio, dispensando overdubs e as firulas de praxe. Não é um feito inédito, o terceiro disco da Maria Sombona está aí para provar. Mas que tenha soado tão alto e claro, fluido, sem nota de travo, trasteados ou arestas a serem aparadas, de uma ponta a outra, sem atropelos nem distensões, é sinal de uma sintonia e um poder de comunicação invulgar.
Não há o que tirar nem por em ‘Preto no branco’. Límpido, sem matiz de dúvida, o registro definitivo do Jazz III se equilibra no pai de todos os contrastes para esbanjar confiança no próprio taco. Quem sabe, sabe.
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Hiato (2021)
Escrevo com a guitarra de Saulo Ferreira nos ouvidos, alheio aos protestos da lógica, de costas para os pruridos racionais do ofício. Assim, evito o risco de chover no molhado ao afirmar as virtudes excepcionais do músico mais uma vez. Trabalho em casa, desabotoado. Com um pouco de sorte, a redação deve fluir como Hiato: ligeiro, leve, equilibrado. Em uma palavra: sereníssimo.
Deus me livre de cansar o leitor com declarações categóricas, tão prenhes de significado quanto um balão inflado, prestes a estourar. Hiato, no entanto, talvez seja o mais solar dos trabalhos assinados por Saulinho. A impressão geral impregnada em cada um dos temas é a de uma tranquilidade exultante. Pleno de potência, ciente do seu lugar no mundo, o danado como que respira, simplesmente.
A comparação com o álbum anterior é inevitável. Apesar de adotar o mesmo vocabulário musical, próprio do período em que o jazz se libertou de qualquer compromisso com o engajamento avant garde de sua fase mais experimental, o guitarrista parece satisfeito de flertar com certas facilidades melódicas. O aceno é discreto e muito agradável. Suficiente, apenas, para comunicar a sensação de alegre despojamento mencionada antes.
Nas redes sociais, ao anunciar o rebento, em plena pandemia, Saulo Ferreira revelou suas motivações. Trata-se de abraçar as pessoas queridas, apesar dos braços embaraçados pelas circunstâncias. “Esse disco reflete o amor, a saudade, a esperança. Reflete minha casa, minhas flores e meu espírito”.
Hiato soa assim mesmo, íntimo e saboroso, como o café coado durante anos de convívio e cumplicidade. Exala calor doméstico. Contra a luz, o melhor do compositor se revela. Este é o trabalho de um músico seguro e, com o perdão do adjetivo surrado, completamente maduro.


