Bolsonaro não tem palanque em Sergipe e não é bom cabo eleitoral

Depois de ser confirmado como novo presidente do PTB sergipano, o ex-deputado federal João Fontes pegou um avião e foi à Brasília convidar a ministra
Damares Alves para ser candidata ao senado pelo estado de Sergipe. Apesar de ter raízes no estado, a ministra tem opções mais favoráveis em outros estados.
Além do partido, João Fontes não tinha nada a mais a oferecer a ministra. Ela, no entanto, daria alguma visibilidade a sua natimorta candidatura a governador, porque passaria a impressão de que o presidente Bolsonaro tinha um candidato ao governo de Sergipe.
Ser o candidato de Bolsonaro em Sergipe ou em qualquer outro estado do nordeste, no entanto, não representa muita coisa. Pesquisa Datafolha divulgada na última quinta-feira confirma que o ex-presidente Lula continua líder absoluta na região, sem espaço para o crescimento da candidatura à reeleição do presidente.
Se o presidente não ajuda, os candidatos bolsonaristas também não lhe dão bons palanques em Sergipe, a exemplo de João Fontes. O deputado federal Laércio Oliveira (PP), o bolsonarista mais emplumado em Sergipe, que trabalha para ser o candidato a senador na chapa do deputado federal Fábio Mitidieri (PSD), candidato do governador Belivaldo Chagas à sua sucessão, cuidará apenas da sua campanha.
Nas eleições presidenciais de 2018, Bolsonaro perdeu nos dois turnos para o candidato do PT, Fernando Haddad. No primeiro turno, Haddad obteve 50,09% (571.234 votos) contra 27,21% (310.310 votos) de Bolsonaro; no segundo a diferença aumentou ainda mais: Haddad conquistou 67,54% (759.061 votos) contra 32,46% (364.860 votos) de Bolsonaro. Em Aracaju, no primeiro turno, Bolsonaro venceu com 155.892 votos (52,76%) enquanto Fernando Haddad (PT) obteve 85.326 votos (28,42%). O resultado se inverteu no segundo turno, quando Haddad recebeu o apoio de partidários de todos os demais candidatos de centro-esquerda – Haddad 155.892 votos (52,76%) e Bolsonaro 139.603 (47,24%). Em 2022, com a provável candidatura do ex-presidente Lula, a diferença tende a aumentar.
Enquanto Bolsonaro estiver no poder, no entanto, terá o apoio da classe política sergipana, que sempre puxou o saco do presidente de plantão, desde os generais da ditadura, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula, Dilma e até Temer. Senador biônico na época da ditadura, Lourival Baptista costumava levar potes de sorvete da Cinelândia e queijadas de São Cristóvão para ministros e generais.
Hoje pode até não ter queijada e sorvete, mas Bolsonaro é paparicado pela bancada sergipana no Congresso com votos a favor de uma pauta contra o trabalhador, a exceção do senador Rogério Carvalho (PT) e o deputado João Daniel (PT), e agora do senador Alessandro Vieira (Cidadania), mesmo tendo sido eleito com o voto bolsonarista, e do deputado Fábio Henrique (PDT). Mitidieri alterna votos contra e a favor do governo. Laércio Oliveira, Valdevan Noventa (PL) – cassado pelo TSE, será substituído pelo petista Márcio Macêdo -, Fábio Reis (MDB) e Gustinho Ribeiro (Republicanos) disputam para ver quem é o mais ligado ao presidente. A senadora Maria do Carmo (DEM) está sempre ao lado do governo, quem quer que seja. Na Assembleia Legislativa ocorre algo semelhante, e hoje, dos 24 deputados apenas o petista Iran Barbosa e Francisco Gualberto, agora no PSD, se posicionam contra o presidente e foram os únicos a votar contra a concessão a ele do título de cidadão sergipano.
Os dois principais candidatos ao governo de Sergipe são Rogério Carvalho e Mitidieri. O petista deverá ser muito favorecido com a candidatura de Lula, enquanto o deputado já avisou que vota no ex-presidente, mesmo que ele não esteja em seu palanque. O senador Alessandro Vieira (PSDB), que também pode ser candidato, tirou o figurino bolsonarista há muito tempo e deve apoiar a candidatura do governador de São Paulo, João Dorea (PSDB). O PL, partido de Bolsonaro, não terá candidato majoritário em Sergipe.
Em Sergipe, Bolsonaro e os bolsonaristas terão papel secundário nestas eleições.

Compartilhe esta notícia