CFM na contramão

Há algo de errado no Conselho Federal de Medicina. Nos anos da pandemia de covid-19, não se viu ali qualquer esforço para condenar o uso de medicamentos compradamente ineficazes contra o vírus. Agora, sem mais nem menos, o CFM atropela a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a fim de dificultar o acesso a tratamento alternativo de pacientes sem esperança de conforto, além da prescrição da Cannabis medicinal. Dois pesos, duas medidas.
O voluntarismo do CFM beira o sadismo. O documento da entidade médica, publicado na semana passada, autoriza o uso do canabidiol apenas para o tratamento de epilepsias da criança e do adolescente refratárias (que não respondem) às terapias convencionais na Síndrome de Dravet e Lennox-Gastaut e no Complexo de Esclerose Tuberosa. Convém esclarecer, entretanto, que a Anvisa já autorizou a fabricação e a importação de produtos com Cannabis para fins medicinais, há anos.
O Ministério Público Federal sentiu o cheiro de algo suspeito no ar e já tomou as providências necessárias para questionar as razões do CFM. Convém ressaltar, entretanto, a novidade da postura. Há quase dez anos, em 2014, a entidade autorizou neurocirurgiões e psiquiatras a prescrever remédios à base de canabidiol (CBD). A resolução equivale a uma admissão de que a folha não mata. Muito ao contrário. Além do uso recreativo, ainda controverso, é ponto pacífico entre especialistas e estudiosos do tema que o cultivo da maconha pode se prestar a finalidades diversas – medicinais, inclusive.
Certo é que o estigma de planta maligna atribuído à maconha, fruto de uma histeria nada científica, vem sendo desautorizado repetidamente. No mesmo ano de 2014, já mencionado, a Organização das Nações Unidas admitiu em documento que os objetivos na luta mundial contra as drogas não foram cumpridos. E ainda foi além: sugeriu pela primeira vez a descriminalização do consumo de entorpecentes. A guinada reacionária do CFM toma, portanto, a contramão da História.

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