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CINEMA DE CAIXA DE SAPATO


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Publicado em 05 de março de 2024
Por Jornal Do Dia Se


homenagem ao amigo Nenê, da rua Pai Tomé

 

* Thiago Fragata

Corria ano de 1980, fui morar na Ladeira do Porto da Banca e lá conheci a família do Seu Beto. Ele tinha muitos filhos com a Dona Nininha. Estudei com Gilza e brinquei com Dingo e Joel. Este, contando 13 anos, desenvolveu maneira especialíssima de fazer sessão de cinema em sua casa. A experiência cinematográfica marcou aquela fase da minha vida, até porque foi assim que descobri os segredos da sétima arte.
O cinema conhecido na cidade histórica era o Cine Trianon, localizado na Praça da Matriz, no prédio onde hoje funciona a Caixa Econômica Federal. Os mais velhos recordavam naquela época do antigo Cine Fabril, localizado na vila operária da Fábrica Sam Christovam S.A., desativado em 1976. Quem comandava a programação e exibição do Trianon era o popular Milton, que exercera a mesma função no Fabril, o amigo Nenê fazia parte da equipe. Eram três tipos de sessões a depender do dia: sexo explícito, somente para adultos; aventura (luta ou faroeste), e infantil, geralmente exibida aos domingos pela tarde.
Feita a digressão importante para compreensão do cinema de caixa de sapato que presenciei criança na Ladeira do Porto da Banca, voltemos ao caso. O menino Joel acalentava uma ideia fixa de ser lutador de Kung Fu, como Bruce Lee. Era aficionado pelo herói que fazia a maior bilheteria da cidade. Até hoje não sei como ele descobriu o cinema artesanal. O artifício era o seguinte: ele pegava uma caixa de sapato e instalava uma lâmpada de 120 watts dentro, num canto. Do outro canto fixava um monóculo desprovido da foto. A partir de um carretel fazia rolar tira de papel manteiga entre a lâmpada e o monóculo. Na tira fixava desenhos feitos por um dos amigos sob sua orientação. Lembro a sequência de 3 ou 7 cenas. Para os filmes de luta (dois homens em pé, homem com a perna a altura do rosto do adversário, vítima caindo ensanguentada, um corpo do chão outro de pé, era mais ou menos isso). Mas tinha ainda os filmes de sexo (estes eu deixo com a imaginação do leitor). Somente alguns anos depois descobri os detalhes apimentados da peripécia!
Joel assumia o papel de produtor e projetor dos filmes, antes anunciava os títulos na vizinhança: 7 horas vai ter filme lá em casa! As sessões eram livres para a garotada, – Nem sempre. No quarto todos se sentavam no chão e a luz emanada da caixa mágica projetava os desenhos na parede. No momento da luta permanecia o silêncio, porém ao sinal das cenas picantes do sexo a algazarra atraía os pais de Joel. Diante deles, o projetista exibia as cenas de uma luta em que a vítima ressuscitava para apanhar e morrer, apanhar e morrer, apanhar e morrer, repetidamente.
Teve ocasião que o menino Joel cobrou entrada, aceitava geladinho, bala e centavos. É que ele conseguiu retalhos de filmes coloridos no lixo do Cine Trianon. Dá pra imaginar o frisson, o chamego, a euforia da meninada da ladeira. O garoto-propaganda ostentava, orgulhoso, a nova por dias e dias: tenho filme colorido, inclusive de sexo!
Bons tempos aqueles…

* Thiago Fragata, historiador, escritor, multiartista. Texto do seu livro inédito Cronicário das memórias – São Cristóvão/SE. E-mail: [email protected]

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