Gabriel Damásio
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Os trotes e a perturbação do sossego alheio são o grande entrave na prestação dos serviços de emergência da polícia e só vão diminuir com o aumento da repressão aos infratores, incluindo a cobrança de multas pesadas em dinheiro. O argumento é defendido pelo major Elias Linhares, diretor-adjunto do Centro Integrado de Operações em Segurança Pública (Ciosp), unidade da Secretaria da Segurança Pública que centraliza o atendimento dos telefones 190 (Polícia Militar), 193 (Corpo de Bombeiros), 181 (Disque-Denúncia), 194 (CPTran) e 198 (CPRv).
O centro, que também monitora as viaturas das corporações e as câmeras de segurança instaladas em cinco grandes bairros de Aracaju, já recebeu, entre janeiro e novembro deste ano, mais de 1,3 milhão de telefonemas de todo o estado. Deste total, 17% – equivalente a cerca de 300 mil – são trotes com brincadeiras e mensagens falsas de crimes ou ocorrências, entre outros tipos. Faltam contabilizar os dados de dezembro, mas o Ciosp já contabiliza uma queda em relação aos trotes registrados no ano passado, que somaram 20% do total. O JORNAL DO DIA reproduz os principais trechos da entrevista concedida por Linhares nesta sexta-feira:
CHAMADAS
BLOQUEADAS
"A gente conseguiu reduzir [os trotes] porque algumas ações estão sendo tomadas de forma isolada e por iniciativa da própria direção do Ciosp. Por exemplo: a nossa Central [de atendimento] é inteligente e a partir de uma determinada quantidade de trotes originados de um mesmo número telefônico, este telefone é automaticamente bloqueado apenas para os serviços de emergência, ou seja, deixa de fazer ligações para o telefone de emergência. A Central bloqueia esta ligação, coloca uma gravação e o cidadão só consegue retornar a essa prática se comprar outro chip ou ligar de outro número. Por enquanto, só podemos fazer isso com os telefones móveis [celulares], por questões óbvias".
VIATURAS OCUPADAS
"Há trotes que são tão bem elaborados que não conseguem ser evitados e acabam sendo cadastrados como ocorrências. A partir desse registro, a ocorrência é despachada para uma equipe, seja ela da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros ou da Polícia Civil, e uma viatura é deslocada para o local onde efetivamente não está acontecendo uma ocorrência. Aquela viatura fica ocupada, sem poder ser designada para outra ocorrência, e outra pessoa que porventura tenha uma necessidade real na mesma região vai deixar de ter uma viatura disponível para atender àquela ocorrência efetiva. E aí, quando o cidadão faz uma coisa dessas, ele nunca se coloca no lugar da pessoa que pode precisar realmente do socorro policial".
O CUSTO-TROTE
"No segundo momento, há o prejuízo [financeiro]. Quem paga o serviço público somos todos nós, eu você e o próprio autor do trote, através dos seus impostos. É dinheiro de imposto que está sendo jogado fora. Quando se desloca uma viatura, vai ali também o combustível, o salário do policial, a manutenção da viatura. O Corpo de Bombeiros chegou a fazer um levantamento sobre isso, por ser mais fácil, mais prático e por ter suas guarnições já montadas para deslocamentos. No deslocamento de uma guarnição básica de bombeiro, se gasta no mínimo cerca de R$ 400 em cada ocorrência.
PERTURBAÇÃO DO SOSSEGO
"Nos quatro anos de funcionamento do Ciosp, a perturbação do sossego ocupa sempre o primeiro lugar das ocorrências mais solicitadas no serviço de emergência. E aí cabe uma reflexão sobre a violência no nosso estado. Pra que se tenha uma idéia, entre janeiro e novembro de 2012, nós temos mais de 82 mil ligações reclamando de som alto, e o segundo colocado, que é ‘averiguar pessoa em atitude suspeita’, vem com 14.300 ligações. Vejam a diferença exorbitante entre o primeiro e o segundo colocado. O roubo [incluindo assaltos à mão armada] só vai aparecer em 5º lugar com cerca de 10 mil. Na verdade, nós não temos o crime violento encabeçando os chamados de emergência, mas é bom lembrar que a perturbação do sossego e o som alto podem dar origem a uma ação criminosa de maior gravidade".
DEMANDA ALTA
"Nós temos lançadas mais de 70 viaturas circulando pela Grande Aracaju a cada 12 horas de serviço, mas, estatisticamente, temos finais de semana em que, nas 12 horas, mais de 700 chamadas para perturbação de sossego. Não há como dar vazão a esses chamados, mesmo colocando 100 viaturas na rua. Nós despachamos viatura para atender ocorrência de som alto quando a mesma viatura poderia fazer o policiamento ostensivo, circulando no seu bairro".
FALTA APOIO,
SOBRA ABUSO
"A perturbação do sossego é uma contravenção penal e nesse caso, a polícia sempre é instada a atuar. Agora, como major da Polícia Militar, eu reafirmo que a corporação não tem como dar conta desse problema sozinha. Na verdade, é necessário que haja o envolvimento de todas as instituições e autoridades que têm competência legal para intervir. E aí, você citou o Município, no qual já existe uma legislação, mas as pessoas são mal-educadas, o brasileiro descumpre a norma".
"Por vezes, eu chego em um posto de combustível para abastecer meu veículo e vejo uma placa afixada na parede, dizendo: ‘Proibido o uso de som alto de veículo, lei municipal numero tal’, mas logo abaixo da placa, ou à frente, tem um grupo de jovens com a mala do carro aberta, ouvindo som alto e bebendo sua cerveja. É um problema social, que passa pela educação, mas a legislação também deve ser mais dura".


