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DA BOA ESPERANÇA AOS SERTÕES


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Publicado em 04 de janeiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Lina Maria Brandão de Aras (UFBA), José Vieira da Cruz (UFS) e Pedro Abelardo de Santana (UFAL)

O pôr do sol,apreciado do assentamento Boa Esperança, Olho d’ Água do Casado, Alagoas – foto de Tiago Ripper -, apresenta um Sertão, dentre os vários existentes, visto a partir do Cânion de Xingó próximo a divisa de Sergipe e da Bahia. Imagem de capa da Revista Ponta de Lança, v. 17, nº 33, que diz muito acerca dos significados do dossiê temático “O(s) Ser-tão(ões) e suas histórias: narrativas, acontecimentos e temporalidades”.Disponível no link: https://periodicos.ufs.br/pontadelanca/issue/view/1269
Na perspectiva dos(as) autores(as) que contribuíram com essa edição, “Os Sertões” não se bastam em torno de um ou outro bioma, território ou tipo humano – mas englobam, definem e contém sujeitos, narrativas, espaços, representações e temporalidades distintas, múltiplas e singulares. Um significado transpassado por complexidades, ambivalências e teias de identidades. Desse modo, reservadas as devidas especificidades, contextos e espaços, é possível compreender a existência de vários “Ser-tão(ões)”enquanto locus socioeconômico, de paisagens humanizadas e de diferentes representações culturais.
Nessa perspectiva, dentre os textos associados ao tema “Ser-tão(õe)s e suas histórias”, a referida revista organizou-se cinco eixos.
O primeiro deles, “cultura, territórios e seus significados”, reúne três artigos. Os paladinos do povo, abre as discussões tecendo um debate conceitual acerca do fazer-se da cultura popular. O texto enfoca como intelectuais nordestinos se debruçaram a respeito da noção de “cultura popular”, dentre eles: Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo, entre outros. O segundo, Territorização dos Sertões da Bahia, faz uma análise histórica da territorialização dos sertões baianos, desde suas vilas e territórios no século XIX até as mais recentes discussões interpostas por políticas públicas – acerca dos sertões em meio às dinâmicas do atual presente histórico. E o artigo, De região à território, analisa como políticas governamentais associaram o interior da Bahia a noção de sertão – entendido como espaço/região administrativa, econômica e cultural -, ao tempo que critica as políticas públicas mais recentes de identidade e de territorialização que incorrem em (in)visibilizações e, em consequentes, apagamentos de tradições, comunidades e dinâmicas históricas, sociais e culturais.
O segundo eixo, trabalha a “literatura, gênero e paisagem”. Em torno dele, o artigo A utopia sertaneja de Amelia Rodrigues enfoca, a partir da análise de uma obra literária, uma utopia conservadora acerca dos “Ser-tões” visto, não como espaço físico/climático oposto ao litoral, mas como espaço social, moral e disciplinado por princípios católicos entre o final do século XIX e primeiras décadas do século XX. Em seguida, o artigo Paisagens literárias trata da contribuição do conceito de paisagens literárias para o estudo da literatura de terror ambientada no Sertão Nordestino sob a perspectiva da história cultural.
O terceiro eixo aborda estudos sobre “mulheres, raça e o comércio na América Portuguesa”. A respeito, o artigo Mulheres mestiças no Sertão do Seridó discute estratégias de mulheres mestiças no Seridó, Sertão da Capitania do Rio Grande, durante os séculos XVIII e XIX – através de estudo das estratégias de sobrevivência de duas sertanejas mestiças. O outro artigo, De mascate à lojista na porta do Sertão, enfoca um estudo de caso de um comerciante da Vila de Cachoeira, Recôncavo da Capitania da Bahia, século XVIII, que manteve relações comerciais nas rotas dos sertões das Minas Gerais e do Piauí.
O eixo seguinte reúne estudos sobre “vaqueiros, bacamarteiros e cangaço”. Nele, o artigo De avô para pai, de pai para filho enfoca experiências vivenciadas e memórias da tradição cultural sertaneja dos vaqueiros do município de Elesbão Veloso, Piauí. No artigo seguinte, intitulado Cabeças cortadas, discute-se os significados, usos e disputas associados ao corte de cabeças deferidos pelos policiais volantes contra cangaceiros e cangaceiras – enquanto uma ato de barbárie estatal sem correspondência com as formas de violência praticadas pelos cangaceiros. O outro artigo desse eixo, Armados para a brincadeira enfoca memórias e vivências de um grupo de bacamarteiros do município de Inhapi, Sertão de Alagoas, através do uso metodológico da história oral e dos estudos sobre a memória.
O último eixo reuniu dois artigos transpassados pelo tema “indígenas, ensino superior, novo sindicalismo e reforma agrária”. O primeiro deles, Da comunidade ao ensino superior, analisa os efeitos de políticas públicas voltadas para a inserção de indígenas no ensino superior a partir das primeiras décadas do século XXI, em particular, tomando como referência entrevistas com estudantes indígenas egressos do Campus do Sertão da Universidade Federal de Alagoas e, de modo qualitativo, o exame de significados externado por um egresso da comunidade indígena Xokó, Sertão de Sergipe. E o último artigo deste eixo e dossiê, O novo sindicalismo e a reforma agrária no Sertão, discute a experiência dos participantes do Sindicato dos Trabalhadores/Trabalhadoras Rurais de Inhapi, Sertão de Alagoas, no período de transição entre a ditadura civil-militar e a Nova República. Nesse contexto, a ação de católicos próximos à Teologia da Libertação, em particular através das pastorais e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), aproximou-se dos debates da reforma agrária, do MST, do novo sindicalismo, da CUT e das mobilizações em favor da redemocratização.
O convite a essa leitura – transpassado pela imagem do pôr do sol no assentamento Boa Esperança aos artigos do dossiê “O(s) Sert-tão(ões)” -, tem-se profícuas leituras dos sertões, do(as) sertanejos(a)s e de suas histórias. Uma leitura provocativa, atual e que transpõe estigmas, preconceitos e generalizações.

Lina Maria Brandão de Aras, José Vieira da Cruz e Pedro Abelardo de Santana são professores

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