* Antonio Passos
Moro em um condomínio no coração do Grageru faz uns três anos. Aqui me aconteceu uma coisa inédita. Algo que nunca havia acontecido em nenhum dos incontáveis endereços nos quais havia morado.
Eu ainda estava desarrumando a mudança quando a vizinha de parede tocou a campainha. Trouxe nas mãos um livro para me emprestar: “Tudo é Rio”, de Carla Madeira.
A gentileza do ato impossibilitou qualquer recusa. Acolhi a publicação impressa e prometi a leitura. Jamais havia recebido tão apropriado gesto de boas-vindas.
Comecei a ler o livro e fui surpreendido de início por uma narrativa rica em sutilezas psicológicas e abundância de erotismo.
Histórias paralelas, marcadas por serenidade e turbulência, vão aos poucos se enroscando até a explosão de uma reviravolta trágica e desconcertante.
A leitura que de início despertou surpresa também viu pular das páginas a sensação de um feliz sossego, vinda da descrição do dia a dia de uma família humilde e solidária. Mas, de repente, embrulhou meu estômago. Parei! Não conseguia mais avançar.
Larguei o livro sobre outros empilhados e o tempo foi se alongando. A vizinha então pediu o exemplar de volta para emprestar a outra pessoa. O livro foi devolvido, emprestado, lido e voltou às minhas mãos algumas semanas depois.
A pausa foi suficiente. Criei coragem, retomei a leitura e enfrentei as mais inquietantes páginas de “Tudo é rio”. Daí pra frente continuaram as reviravoltas, sempre trazidas por uma escrita cativante, até a frase de encerramento: “Deus estava de volta”.
Em retribuição a tamanha gentileza, coloquei nas mãos da vizinha “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves. Dias depois ela devolveu o livro.
Disse-me que não conseguiu atravessar o relato da viagem transatlântica nos porões de um navio negreiro, entre África e Brasil, descrita nos primeiros capítulos. Ainda espero a ocasião da retomada do empréstimo.
Dois livros relativamente novos, escritos por mulheres, autoras brasileiras, capazes de tirar o fôlego. Ao final, não deixam dúvida de que foram importantes e compensadoras leituras.
* Antonio Passos é jornalista


