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Eleições municipais – o eterno retorno da simbiose


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Publicado em 03 de julho de 2012
Por Jornal Do Dia


Que significa o fato de que antigos políticos da ARENA, do PDS, do PPB, autênticos anti-marxistas, empedernidos anti-sindicalistas, combatentes de toda e qualquer organização social que pleiteassem mudanças estruturais estarem reunidos a supostos marxistas, a supostos autênticos socialistas, a supostos militantes trotskistas e até mesmo a desgarrados da Igreja da Teologia da Libertação?

 

* Miguel dos Santos Cerqueira

A hora é do eterno retorno. O período pré-eleitoral nos faz ter certeza de que não tinha razão o filosofo alemão quando afirmara que a historia não se repete senão como farsa. De certo a verdade estava com outro filosofo, também alemão, filosofo esse que era um misto de louco e poeta, talvez, por isso ousava ver coisas que a outros, apesar da genialidade, passavam despercebidas, ou seja, que a história se repete sim, não como farsa, mas sempre como comédia ou tragédia, a depender do ângulo de visão de cada um, trata-se de um eterno retorno.
Adentramos o período pré-eleitoral das eleições municipais, o povo está ávido para eleger os seus novos alcaides, mas não só estes, também anseiam por eleger os seus novos edis. A hora é de conciliação.  Os opostos se atraem e formam uma aparente perfeita simbiose.
Com em épocas pretéritas, algumas não tão distantes, antigas vítimas se juntam aos antigos carrascos, afinal o fim justifica os meios.  Primeiro é o completo antagonismo, a antinomia perfeita, depois é a convergência de divergências. A atração de aparentes opostos demonstra que na verdade nunca foram opostos, mas faces de uma mesma moeda, peças de um mesmo tabuleiro de xadrez.
É claro, as eleições estão aí. E as eleições, não sendo espaço de atores ou palhaços, é um palco. Mais significativos se tornam, portanto, os sinais das velhas fórmulas, o eterno retorno.
As eleições estão aí, marcadas por uma fauna de partidos políticos que nada dizem ou representam, caíram no lugar comum de dizer que não mais faz sentido os termos esquerda e direita. Aliás, representam sim, não qualquer ideologia, mas a vontade de poder, a ânsia por negociatas ou ambição por rapina de dinheiro público por parte  dos donos de alguns desses partidos.
As eleições estão aí. E as eleições com palco para representações, não a representação no sentido proposto pelo velho filosofo que afirmava que o mundo é vontade e representação, mas a representação dos prestidigitadores.  As eleições são o momento das exacerbações retóricas, o palco dos sofistas. Por exemplo, nos debates na televisão ou nos comícios sempre aparecerá alguém a verberar contra a corrupção e contra as empreiteiras, sobretudo, entre aqueles que compõem as grandes coligações partidarias, as quais incluem personalidades de idoneidade duvidosa, inidoneidade que não é opinião nossa, mas segundo os noticiários reiterados da grande imprensa com as quais eles mesmo compactuam. Certamente esses mesmos candidatos são financiados pelas grandes empreiteiras que atacam em seus discursos. Não seria este um sinal eloquente de que as eleições são um grande palco para encenações?
Que significa o fato de que antigos políticos da ARENA, do PDS, do PPB, autênticos anti-marxistas, empedernidos anti-sindicalistas, combatentes de toda e qualquer organização social que pleiteassem mudanças estruturais estarem reunidos a supostos marxistas, a supostos autênticos socialistas, a supostos militantes trotskistas e até mesmo a desgarrados da Igreja da Teologia da Libertação?  Que significa antes acusados de corrupção estar de braços dados com supostos defensores da família e da honestidade no trato da coisa pública? Seria o final dos tempos ou a rendição aos postulados de Maquiavel?
A verdade, sem tirar nem por, é que a maioria dos supostos combatentes das trevas, dos combatentes por democracia e justiça social, semelhantemente ao velho Josef Stálin e a maioria dos militantes da Social Democracia Alemã, anteriormente a se revelarem já estavam vencidos pela velha ordem, a ordem do conformismo e da empulhação, já tinham aderido ao axioma do Conde de Lampedusa, afinal sempre é preciso se mudar alguma coisa nenhuma para que não se mude coisa nenhuma.
E as eleições estão aí, e como o era na velha Grécia de Perícles, aqueles que têm as cartas fazem o jogo, afinal é sempre possível simbiose perfeita, a junção de supostos desiguais, afinal, nunca se pretenderá quaisquer mudanças, a não ser nos discursos e nos rostos, pois, como dizia São Paulo: "ontem fui moço e hoje sou velho".
Por isso não se pretende qualquer alteração séria nas regras do jogo, não se pretende qualquer reforma política que impeça coligações que buscam não apenas assaltar o pode, mas também os cofres, não se pretende impedir partidos de "donos" ou de "quadrilhas", não as quadrilhas de época de São João, ou partidos que não se definam no espectro ideológico surgido da Revolução Francesa cuja validade e contemporaneidade é afirmada pelo incensado pensador Norberto Bobbio; não se pretende outra coisa senão a permanência do amalgama, da simbiose, do consistório dos cúmplices.
As eleições são de fato um palco não para encenações grandiosas de comédias de Aristófones, mas para o eterno retorno das óperas bufas.

* Miguel dos Santos Cerqueira é defensor público, Coordenador do Núcleo de Defesa de Direitos Humanos da DPSE. E-mail: [email protected]

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