Entre o sonho e o possível: o Brasil real de Lula

* Paulo Franklin

Há grandes diferenças entre torcer por um projeto político e constatar o que ele se tornou quando chegou ao poder. Um olhar mais atento sobre o terceiro mandato de Lula ajuda a responder essa indagação: será que saímos da arquibancada dos sonhos para o campo da realidade que nos levou às urnas em 2022?
A eleição de 2022 não foi somente uma disputa. Para milhões de brasileiros que, assim como eu, foram às urnas, cada voto representou um grito de ajuda, um gesto terapêutico de uma sociedade cansada de tanto ódio, de tantas tensões e do fantasma da fome que voltou a bater na porta de muita gente. O toque na urna eletrônica simbolizava o desejo de retomada da democracia, de respirar novos ares.
Hoje, há mais de dois mil dias no poder, resta evidente que o governo Lula trouxe importantes mudanças. As instituições estão mais alinhadas. O Brasil passou a ser ouvido a nível internacional. Programas sociais foram retomados, o desmatamento caiu, o desemprego recuou e a política ambiental se fortaleceu. São dados objetivos, não propaganda.
Mas governar, como se sabe, nunca foi tarefa fácil. Muito menos romântica. Ao lado das conquistas, Lula precisa lidar com um Congresso conservador, com um orçamento limitado e com uma população que, com toda razão, espera ver mudanças no cotidiano. Nesse jogo político, o governo precisa muitas vezes jogar com as cartas que desagradam sua base, como a necessidade de lidar diplomaticamente com lideranças conservadoras internacionais, a exemplo de Donald Trump, um conservador malquisto por grande parte da esquerda.
Lula governa hoje de maneira mais prática e técnica, distante da imagem de líder simbólico e carismático que um dia representou. Se por um lado essa postura traz resultados positivos, como a estabilidade e o crescimento, por outro lado frustra parte da população, que esperava de Lula uma liderança mais inspiradora e fiel a suas bandeiras originais.
E é justamente aqui que reside o grande desafio do governo Lula em 2026: fazer com que a reconstrução que se desenha no país seja sentida na mesa, no posto de saúde, no aluguel, na escola do filho, no supermercado da esquina.
Aprendi que política não se faz com ódio, mas com maturidade. A democracia não se constrói com gritos, mas com responsabilidade. Então, é perfeitamente possível apoiar sem ser cego e criticar sem ser inimigo. Perfeição é uma palavra ainda distante no governo Lula. Mas, longe de ser um problema, isso é um retrato fiel de quem governa um país real, com limites reais e conflitos reais.
Penso que o maior legado deste mandato não está nos indicadores econômicos nem tampouco nas viagens internacionais, mas sim na oportunidade que a esquerda tem de amadurecer sua relação com o poder, deixando de lado discursos e frases de efeito e passando a entregar resultados concretos, agindo com mais seriedade e responsabilidade no exercício do poder.
A reconstrução do Brasil é um processo lento e contínuo. É um trabalho de formiga. Exige esforço coletivo, paciente e detalhado, feito aos poucos, com avanços e retrocessos, mas sempre com vistas ao bem comum. A pergunta final é simples: estamos dispostos a acompanhar esse ritmo?

* Paulo Franklin é professor e advogado em Estância/SE

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