Cumpre-nos salientar que os jornais estancianos historicamente sempre tiveram como vanguarda a defesa da sua terra. Não se tratava de bairrismo, mas uma luta quase desesperada pela revolução da própria cidade. Politicamente. Socialmente. Culturalmente. Na realização do FEC não deixou de cumprir papel preponderante
* Acrísio Gonçalves de Oliveira
As músicas dos composi- tores locais teriam acompanhamento do conjunto Unidos em Ritmo. Já as músicas dos compositores de outras cidades seriam acompanhadas pelo The Jet Boys, de Aracaju. Vale destacar que para a abertura do festival o citado conjunto, que costumava primar pelo vestuário, já havia preparado um uniforme especial, com caracteres brilhantes. A festa seria "bacana".
Toda a imprensa aracajuana dava notas sobre o FEC. Por exemplo, o citado jornal Diário de Aracaju, para demonstrar as dimensões que vinha tomando o futuro festival, dias antes, informava que "foi organizado pelos estudantes de Estância. Uma ótima promoção que atingiu vários Estados e que tem sido muito bem aceita. A conhecida revista VEJA noticiou o FESTIVAL – nota-se logo a extensão dessa grande iniciativa". Em tempo, a revista Veja, que continua ainda na atividade, teria sido criada no mesmo ano 68. O jornal Gazeta de Sergipe expressaria que: "Duas grandes vitórias marca este primeiro Festival no nosso Estado, primeiro, por ser ainda uma coisa inédita entre nós, depois, por ter sido bolado e organizado pelos dinâmicos estudantes da Cidade Jardim do Estado".
Cumpre-nos salientar que os jornais estancianos historicamente sempre tiveram como vanguarda a defesa da sua terra. Não se tratava de bairrismo, mas uma luta quase desesperada pela revolução da própria cidade. Politicamente. Socialmente. Culturalmente. Na realização do FEC não deixou de cumprir papel preponderante. Folha Trabalhista, fundado em 1949 por Francisco de Araújo Macedo, um dos políticos mais emblemáticos da história estanciana, reuniria ao longo do tempo, em seu semanário, importantes jornalistas. Naquele momento efervescente da cultura nacional, cuja motivação era os festivais que ocorriam no Rio de Janeiro, foi a Folha quem primeiro levou ao público sergipano a matéria sobre um possível festival da música estanciana.
Segundo consta numa entrevista concedida pelo cantor Valter Batista (um dos idealizadores) ao mesmo jornal, a própria Folha Trabalhista teria trazido como matéria de capa: "Estância vai promover um festival popular da canção". Isso faria as pessoas comentar o assunto nas ruas provocando muita expectativa. Quanto à edição do jornal que consta a então chamada que entraria para a história não conseguimos encontrá-lo nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. O fato é que o FEC faria Estância se comportar como uma cidade de grande alcance cultural, passando por esse motivo a "comandar" a Cidade Jardim. Assim, todos só pensavam no festival: o prefeito Raimundinho, a deputada Núbia Macedo, o padre, o bispo, os estudantes, a imprensa.
Finalmente chegara o dia 15. Pela manhã, na catedral, alvorada festiva e missa. Comentava-se, que da capital, havia se comprometido em transmitir o espetáculo as rádios Cultura, Difusora, Liberdade e Atalaia, mas nada concreto. Na primeira eliminatória, somente a última emissora esteve presente. Dias depois, a abertura do evento seria tachado pela imprensa aracajuana como desorganizado. Em resposta os jornais locais reagiriam dizendo que seria uma "grande mentira" e que "o mesmo superou todas as expectativas". Quanto às apresentações diriam que a marcha "Se Te Perder Chorarei", defendida por José Etínger teria sido a mais animada.
Foram classificadas 26 músicas para a segunda fase. Foram, de acordo com a lista do Diário de Aracaju: "Exaltação à Estância", "Eu Te Dou o Mundo", "Protesto", "Guerra e Paz", "É Melhor Te Esquecer", "Cântico do Amor", "Amando e Vivendo", "Não Adianta Chorar", "Os Ventos", "Canção de Abaís", "É Melhor Te Esquecer", "Pescadora", "Brasil Encantador", "Canto do Amor Esquecido", "Só Pra Mim", "Eu Peço Licença Para Falar", "Natureza em Flor", "Eu Ficarei Mesmo no Jardim", "Sonhar e Sofrer", "Se Te Perder Chorarei", "Josefina", "Não Me Abandones", "Não Penses em Me Prender", "A Triste Prece", "Noite Estrelada", "Se a Luz Contasse", "Menina".
Diante da apresentação a torcida estanciana entedia que as canções cotadas à finalíssima poderiam ser "Exaltação à Estância" (Francisca dos Santos), "Canção dos Abaís" (Elísio Matos) e "Protesto" (Zé de Noca), todas, portanto, de Estância. Assim, para a segunda noite de domingo do festival se preparavam para fazer barulho os fãs dos artistas classificados. O FEC era um encanto!
Foi também em pleno dezembro do ano 68 que a corrida espacial entre soviéticos e norte-americanos fariam esses últimos levar, na espaçonave Apollo-8, três de seus astronautas a ter visões extraordinárias do espaço e fotografar "o nascer da terra" quando se encaminhavam à lua. No retorno a espaçonave desceria no oceano pacífico, em 27 de dezembro.
Após a realização da segunda eliminatória o público conheceu as 10 finalíssimas que concorreriam no dia 29. Segundo a lista da Folha Trabalhista, foram as músicas: "Exaltação à Estância", "Protesto", "Eu Te Dou o Mundo" (Nailton Teixeira), "Cântico do Amor" (José Damaceno), "Amando e Vivendo" (Carlos Tadeu), todas de Estância; "Guerra e Paz", de Frederico Figueiredo, "Pescadora", de Joselito Figueiredo (Itabaiana), "Canto do Amor Esquecido", de Theotônio Neto; "Os Ventos", de autoria de Luiz Araújo e "É Melhor Te Esquecer", de Eribaldo Martins, todas as três de Aracaju.
Talvez por algum equívoco da imprensa, nessa lista não figura a música intitulada "Nada Me Importa", do luziense Tonho da Vila, que ao final ficaria em nono lugar. Era uma canção romântica, apontada como uma das mais bonitas do FEC. Segundo o mesmo autor essa a música, que fora defendida pela cantora Maria José, teria sido sondada pelo empresário de Roberto Carlos para ser gravada pelo astro do iê, iê, iê. Por conta de desacertos, infelizmente isso nunca se efetivou.
Embora tivesse sido uma iniciativa estudantil o I FEC teve como responsável, ao menos na fase final, Antônio Teixeira (pai dos adolescentes e cantores Arlene Teixeira e Nailton Teixeira), Fernando Silva e Vanderlei Silva, os adultos que ficaram com a parte burocrática do evento. A atuação desses adultos, tomados como uma referência pela imprensa da cidade, não deixou de gerar descontentamentos por parte de alguns estudantes.
* Acrísio Gonçalves de Oliveira, Pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância


