Grandes discos sergipanos (I) Sangue D'Alma – Cata Luzes

 

* Luciano Correia 
Duas coisas dizem sempre sobre o maravilhoso grupo sergipano Cata Luzes, esse mesmo da música Cheiro da Terra, um dos hinos não oficiais de Sergipe – aproveitando que o oficial não vale muita coisa. 1) Que seu primeiro disco (em LP, depois CD Viagem Cigana), produzido por Paulo Moura, comete um equívoco: que em vez de Cata Luzes e Paulo Moura, o disco deveria anunciar: Paulo Moura apresenta Cata Luzes. Besteira de quem fala. Resultaria tão incerto quanto o próprio mercado da música sempre foi. Ademais, teriam de perguntar aos donos das vozes: isso seria fundamental a uma perspectiva de sucesso? Aliás, era o sucesso que vocês buscavam? Quem conhece a arte e o espírito de Cláudio Miguel, Valdefrê e Tonho Amaral, os três ícones da banda, sabe que as frivolidades do sucesso n&a tilde;o abalam suas convicções.
2) Que o primeiro disco da banda, de fato, uma verdadeira obra de arte, seria o melhor de todos. Uma meia verdade, pelo menos até a chegada de Sangue D’Alma, que aprofunda, amadurece e consolida o Cata Luzes como uma grande banda, não sergipana ou local, ou "da terra", mas uma grande banda naquilo que justifica o distintivo: uma reunião de grandes músicos, excelentes arranjos e composições dignas daquilo que um dia se chamou música. Em cada faixa deste Sangue… se vê (ops!! Ouve!) o arranjo luxuoso que traduz um refinamento no tratamento de cada uma delas, nos vocais e, sobretudo, na presença de músicos como… Paulo Moura (vejam que ele não é um acaso na vida desses sergipanos), Rildo Hora, o grande gaitista, antigo militante do extinto PCB, e outros, muitos e bons m&uacu te;sicos .
É um disco de gente grande, de quem gosta, entende e valoriza a música. Que busca, por exemplo, nos vocais em espanhol, uma performance irreparável. Vai crescendo desde a primeira faixa, com variações que contemplam regionalismos – o nosso, se bem me entendem, as coisas do Nordeste – mas depois vai passeando pelo mundo sem fronteira dos sons, flertando com latinidades (a rumba Donde Estarás), as raízes africanas (Relógio Solar), a melancolia da música título, Sangue D’Alma ("Era regato dos seus olhos/Sete lenços enxugavam/No meu caule sangue d’alma/Eu tivera esperança). Noz-Moscada, um chorinho, parece uma brincadeira dos cataluzes com o sagrado Paulo Moura, que quebra tudo com sua clarineta, uma raridade, sobretudo quando sabemos que Moura não viveu mui to tempo depois dessa gravação.
E Navio da Meia Noite, o lamento de um apaixonado que lembra o raspado dançado no delta do Parnaíba e interior do Maranhão? Estrada do Passado, faixa 10, é a melhor prova de que o disco só melhora a cada música. Aqui a composição de Valdefrê e Tonho Amaral remove passados musicais muitos caros a quem viveu a cena musical aracajuana dos 70, virando os 80. Tem uma saudade daqueles anos e das vozes que foram marca deles por aqui, do gigante Alcides Melo à doçura das canções do ex-Irineu Fontes e Lula Ribeiro. Uma baladinha com cheiro de DCE da UFS, cara ao vento na estrada, nossas histórias de amor e loucura. Depois, como se achassem pouco o que já tinham feito nesse incomparável Sangue D’Alma, os Cata Luzes nos brindam com um agônico fado, Porto de Veias , um fad o genuinamente sergipano, mas com os mesmos apelos poéticos de Pessoa, a dor, a saudade e o mar. E traz uma finíssima participação no vocal de Janaína Azevedo, uma voz belíssima, forte, com a personalidade que o disco requeria. Curral de Sobras, a penúltima, é uma oração latina (ops! Vão no You Tube e confiram uma música rigorosamente com este título, de César Nascimento, do Maranhão, que vão compreender de que tipo de coisa estou falando). Um canto triste, de luta, resistência e morte, nossa própria sina. Mas isso numa qualidade musical que, não fosse produzida no pequenino e invisível Sergipe, se tornaria uma legenda da música brasileira. Mas é assim a vida e a lógica que move as coisas. Por isso, pra terminar com alegria, os Cata Luzes festejam nossas tradições com Bambaquerê, uma colagem de nos sos sotaques, de Pernambuco a Laranjeiras. Foi a mesma música que um dia, nos velhos festivais de arte de São Cristóvão, quando eu chegava na praça atrasado pra aquele show, ouvindo sem saber de quem se tratava, fiquei maravilhado com os sons que ecoavam ruas e épocas afora. Eram os Cata Luzes.
* Luciano Correia é jornalista e professor universitário

* Luciano Correia 

Duas coisas dizem sempre sobre o maravilhoso grupo sergipano Cata Luzes, esse mesmo da música Cheiro da Terra, um dos hinos não oficiais de Sergipe – aproveitando que o oficial não vale muita coisa. 1) Que seu primeiro disco (em LP, depois CD Viagem Cigana), produzido por Paulo Moura, comete um equívoco: que em vez de Cata Luzes e Paulo Moura, o disco deveria anunciar: Paulo Moura apresenta Cata Luzes. Besteira de quem fala. Resultaria tão incerto quanto o próprio mercado da música sempre foi. Ademais, teriam de perguntar aos donos das vozes: isso seria fundamental a uma perspectiva de sucesso? Aliás, era o sucesso que vocês buscavam? Quem conhece a arte e o espírito de Cláudio Miguel, Valdefrê e Tonho Amaral, os três ícones da banda, sabe que as frivolidades do sucesso n&a tilde;o abalam suas convicções.
2) Que o primeiro disco da banda, de fato, uma verdadeira obra de arte, seria o melhor de todos. Uma meia verdade, pelo menos até a chegada de Sangue D’Alma, que aprofunda, amadurece e consolida o Cata Luzes como uma grande banda, não sergipana ou local, ou "da terra", mas uma grande banda naquilo que justifica o distintivo: uma reunião de grandes músicos, excelentes arranjos e composições dignas daquilo que um dia se chamou música. Em cada faixa deste Sangue… se vê (ops!! Ouve!) o arranjo luxuoso que traduz um refinamento no tratamento de cada uma delas, nos vocais e, sobretudo, na presença de músicos como… Paulo Moura (vejam que ele não é um acaso na vida desses sergipanos), Rildo Hora, o grande gaitista, antigo militante do extinto PCB, e outros, muitos e bons m&uacu te;sicos .
É um disco de gente grande, de quem gosta, entende e valoriza a música. Que busca, por exemplo, nos vocais em espanhol, uma performance irreparável. Vai crescendo desde a primeira faixa, com variações que contemplam regionalismos – o nosso, se bem me entendem, as coisas do Nordeste – mas depois vai passeando pelo mundo sem fronteira dos sons, flertando com latinidades (a rumba Donde Estarás), as raízes africanas (Relógio Solar), a melancolia da música título, Sangue D’Alma ("Era regato dos seus olhos/Sete lenços enxugavam/No meu caule sangue d’alma/Eu tivera esperança). Noz-Moscada, um chorinho, parece uma brincadeira dos cataluzes com o sagrado Paulo Moura, que quebra tudo com sua clarineta, uma raridade, sobretudo quando sabemos que Moura não viveu mui to tempo depois dessa gravação.
E Navio da Meia Noite, o lamento de um apaixonado que lembra o raspado dançado no delta do Parnaíba e interior do Maranhão? Estrada do Passado, faixa 10, é a melhor prova de que o disco só melhora a cada música. Aqui a composição de Valdefrê e Tonho Amaral remove passados musicais muitos caros a quem viveu a cena musical aracajuana dos 70, virando os 80. Tem uma saudade daqueles anos e das vozes que foram marca deles por aqui, do gigante Alcides Melo à doçura das canções do ex-Irineu Fontes e Lula Ribeiro. Uma baladinha com cheiro de DCE da UFS, cara ao vento na estrada, nossas histórias de amor e loucura. Depois, como se achassem pouco o que já tinham feito nesse incomparável Sangue D’Alma, os Cata Luzes nos brindam com um agônico fado, Porto de Veias , um fad o genuinamente sergipano, mas com os mesmos apelos poéticos de Pessoa, a dor, a saudade e o mar. E traz uma finíssima participação no vocal de Janaína Azevedo, uma voz belíssima, forte, com a personalidade que o disco requeria. Curral de Sobras, a penúltima, é uma oração latina (ops! Vão no You Tube e confiram uma música rigorosamente com este título, de César Nascimento, do Maranhão, que vão compreender de que tipo de coisa estou falando). Um canto triste, de luta, resistência e morte, nossa própria sina. Mas isso numa qualidade musical que, não fosse produzida no pequenino e invisível Sergipe, se tornaria uma legenda da música brasileira. Mas é assim a vida e a lógica que move as coisas. Por isso, pra terminar com alegria, os Cata Luzes festejam nossas tradições com Bambaquerê, uma colagem de nos sos sotaques, de Pernambuco a Laranjeiras. Foi a mesma música que um dia, nos velhos festivais de arte de São Cristóvão, quando eu chegava na praça atrasado pra aquele show, ouvindo sem saber de quem se tratava, fiquei maravilhado com os sons que ecoavam ruas e épocas afora. Eram os Cata Luzes.

* Luciano Correia é jornalista e professor universitário

 

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