Hélio Leão inibiu o nascimento de líder estudantil

* Afonso Nascimento
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Em 1974, durante o regime militar, conheci um sujeito  branco, franzino, que dizia ter nascido em Itabaiana. O  seu pai tinha uma farmácia no centro da cidade serrana e ele vivia na avenida Augusto Maynard, na esquina com a praça Tobias Barreto, com sua mãe, Dona Izabel, e sua irmã Auxiliadora, já que o seu irmão Bené fora estudar Odontologia em Salvador.
Em Aracaju, tinha feito o clássico no Atheneu, como tantos meninos de classe média da capital e do interior. Gostava de tomar cerveja e fumar cigarros da marca Carlton (“um raro prazer”). Era alguém que lia bastante, sempre carregando um livro ou um jornal alternativo debaixo do braço. Com muito humor, dizia não ter muito sucesso com as mulheres, porque elas falavam que gostavam mais dele quando escrevia do que pessoalmente.
Um amigo comum nosso chamado Bosco Mendonça falava que ele era “o escrivão da frota” (bom para escrever panfletos, filipetas), mas não era um indivíduo corajoso. Enquanto cursava o segundo ano na Faculdade de Direito, no tempo em que o prédio desta se localizava na avenida Ivo do Prado, esse indivíduo generoso que usava camisa com mangas compridas dobradas até os cotovelos esteve perto de desmentir o psicólogo tornado político num episódio ocorrido em 1974 e que passo a narrar agora.
 A pessoa de quem estou falando é Luciano Oliveira, também conhecido por “Cibalena”, uma referência ao menino que ajudava seu pai na farmácia de seu pai, Oliveirinha. Outro amigo dele, Carlos Alberto Menezes, o chamava de “Luchino”, como o cineasta italiano. Quero dizer que não fui testemunha da história que quero contar, pois ingressei na mesma faculdade em 1973, ao passo que o protagonista dessa história o fez em 1972. Entretanto, juro que, com pequenos exageros na narrativa, tudo é verdade. O que aconteceu?
 A despeito da ditadura militar, o Centro Acadêmico Sílvio Romero (CASR) não foi fechado e continuou a realizar a eleição de seus dirigentes pelo voto direto, impresso e auditável. Em 1974, o grupo a que pertencia Luciano Oliveira resolveu convidá-lo a ser o cabeça da chapa que disputaria a direção da associação dos estudantes de Direito. Seus colegas chegaram a dizer que seria uma direção colegiada, com uns ajudando aos outros em cargos hierárquicos de menor importância.
Querendo mostrar a todos que não concordava com o regime autoritário, Cibalena disse que topava a parada e botou o seu bloco na rua, com isso tentando eu dizer que tinha começado a sua campanha eleitoral. Não sei dizer se o grupo cantou aquela canção de Geraldo Vandré (“Para não dizer que falei de flores”) com o início do processo eleitoral. Pelas previsões do grupo, a vitória era dada como certa, pois eles formavam as melhores cabeças estudantis da faculdade. Foi aí que algo não esperado aconteceu.
O garçom da faculdade que servia aos professores procurou Luciano Oliveira e lhe disse que o seu diretor, José da Silva Ribeiro Filho, queria ter uma conversa com ele. Coisa normal, pensou ele. Quantas vezes não tinha batido papo com professores sentados nos bancos debaixo de árvores de oitis daquela escola? E lá foi o candidato ao encontro do novo diretor – que passou a ocupar o cargo depois do longo “reinado” do professor Gonçalo Prado Rollemberg. O novo dirigente da Faculdade de Direito apenas lhe disse que o chefe de segurança e informação da UFS, Hélio Leão, o convocou para uma reunião no prédio da Reitoria. Esse senhor magro, de estatura não alta e de passo sempre apressado, tinha escritório situado também na rua Lagarto, perto daquele do reitor.
Depois de ligeiros cumprimentos, o agente do regime autoritário pediu para ele se sentar e foi diretamente ao assunto. “Você não pode ser candidato a presidente do CASR”. Tomado de surpresa, perguntou: “E por que não? Posso saber?” O poderoso homem do SNI estranhou a pergunta e apenas lhe disse que não podia. Papo encerrado. Luciano Oliveira recolheu o seu jornal alternativo que carregava debaixo do braço como seu conterrâneo Goisinho e deu no pé – ficando acertado antes que ele voltaria no dia seguinte à mesma hora e ao mesmo lugar para uma nova conversa.
Enquanto voltava para a faculdade, Cibalena ficou se perguntando muitas coisas. Será que “os homens” achavam que ele era comunista e ele próprio não sabia? Ou ainda: isso não seria um golpe sujo da chapa concorrente para tirá-lo do páreo? Poderia ser expulso da faculdade, caso não obedecesse a ordem de Hélio Leão? Ele conversou com os companheiros de chapa e deles ouviu que aquilo não era nada, pois todos eram “fichas limpas”. Mais tarde foi almoçar em sua casa, mas nada falou à sua mãe, pois já imaginava o que ela lhe diria. Na manhã do dia seguinte tomou o caminho do gabinete de Hélio Leão e lá quis saber por que só o seu nome fora vetado. O homem dos militares pediu para ele não insistir. Então Luciano Oliveira solicitou a decisão por escrito. Foi ignorado novamente por aquele homem arrogante e prepotente.
Já que não tinha conversa, pegou o envelope que continha a sua carta-renúncia nos termos mais ou menos combinados com os colegas e escrita na sua máquina Remington e, num gesto levemente rebelde, o jogou em cima do birô do homem que só mandava e, em seguida, foi à faculdade que funcionava pela manhã e comunicou aos colegas o que tinha acabado de fazer. Abaixo transcrevo o documento de sua renúncia na sua integralidade.
 “AO ASSESSOR DE INFORMAÇÕES E SEGURANÇA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE, SR. HÉLIO LEÃO: JOSÉ LUCIANO GÓIS DE OLIVEIRA, aluno regular do curso de Direito da UFS, vem por intermédio desta retirar a sua candidatura ao cargo de presidente do Diretório Acadêmico “Sílvio Romero”, ao qual concorria pela chapa ‘Reunião’.
Outrossim, vem apresentar a aluna Marta Rezende, que concorria por aquela mesma chapa ao cargo de secretário geral, para suprir a sua vaga.
Nos mesmos termos, adianta ainda que o cargo de secretário geral, também tornado vago, será preenchido pela aluna Rosângela Rezende Silva, que na mesma chapa concorria ao cargo de 1º secretário; e este último, da mesma maneira tornado vago, será preenchido pelo aluno Raul Vieira, que na mesma chapa concorria ao cargo de 2º. secretário, ficando, desta forma, extinto este último. Aracaju, 15 de agosto de 1974. José Luciano Góis de Oliveira”
O que aconteceu em seguida? A campanha eleitoral para o CASR seguiu o seu curso e a chapa agora apoiada por Luciano Oliveira saiu vitoriosa das urnas. O estudante que se tornou quase “herói” disse que se sentiu aliviado por saber que não tinha “vocação” para a política. Estava equivocado. Ninguém nasce para a política e suas habilidades podem ser aprendidas na prática.
Ele já estava trilhando o caminho da política, pois, no ano anterior, fez parte do grupo de estudantes que escrevia jornal que tentava imitar “O Rekado”, juntamente com outros colegas, fechado pela Polícia Federal. Além disso, frequentava sem regularidade as reuniões da Ala Jovem do MDB e participou, em 1975, de um estágio na Câmara dos Deputados para aprender como trabalhavam os deputados federais no Brasil. Resumindo essa história, Sergipe pode ter perdido um agente político estudantil, inibido pelo arbítrio da ditadura militar.
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* Afonso Nascimento, professor de Direito da UFS
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