Igrejas com partido

Paulo Franklin

O ano era 2016. Como quem nasce pequeno e logo cria seus tentáculos, o Movimento “Escola Sem Partido” se espalhou pelo Brasil, com projetos e requerimentos de natureza política e ideológica. Seus defensores passaram a estimular que pais e alunos denunciassem professores, em clara ofensa à liberdade de expressão e de cátedra.
A eleição da extrema-direita em 2018 em muito piorou a situação. São diversos os relatos de professores constrangidos e ameaçados no exercício da sua atividade em sala de aula. Para os apoiadores da Escola Sem Partido, deve-se evitar a doutrinação ideológica, cabendo aos alunos filmar, ameaçar e expor os docentes.
Agora, enquanto vivenciamos o 2º turno das eleições, o cenário parece ter se modificado. Se antes se buscava proibir o professor de supostamente doutrinar os alunos, passou-se a apoiar – e até mesmo ameaçar quem não o faz; que padres, pastores e outros líderes religiosos estimulem seus fieis a votarem no candidato da extrema-direita. Quem antes acusava passou a agir de maneira igual, mas muito pior, pois levou a política para onde ela nunca deveria ter se metido: para dentro das igrejas.
Há quem diga que religião e política não se discutem. Esta máxima, bastante conhecida e utilizada para se evitar discussões, parece ter perdido efeito nos últimos anos. Nunca se viu tanta política dentro das igrejas e, consequentemente, discursos moralistas que tentam moldar um país com base em dogmas e preconceitos.
O discurso dominante visto em muitos templos religiosos atualmente é: ou vota-se no candidato da extrema-direita ou você não pertence ao nosso grupo cristão. A prática criminosa do assédio eleitoral, que este ano não se privou aos locais de trabalho, ganhou espaço também nas igrejas e representa um grande perigo para a atual democracia.
O Padre Zezinho, conhecido evangelizador do meio católico, anunciou no início deste mês que iria se ausentar das redes sociais depois de receber ofensas de bolsonaristas. Dizendo-se cansado de abrir espaço de diálogo para fieis “super politizados, irados e insatisfeitos”, o sacerdote afirmou que o desejo de muitos é que se tenha um Brasil direitista ou esquerdita, mas não cristão.
No Santuário Nacional de Aparecida, durante a festa da Padroeira, bolsonaristas que acompanhavam à missa vaiaram o arcebispo Dom Orlando Brandes, adentraram na sacristia para discutir com o padre e agrediram uma equipe de TV que acompanhava a festividade. De camisetas amarelas e com latas de cerveja nas mãos, outro grupo de apoiadores do atual presidente perseguiu um jovem de camiseta vermelha e, conforme noticiado pelo Site Metrópoles, gritaram: “Aqui é Bolsonaro, vamos pegar ele”. Foi preciso que o jovem se retirasse do local para não ser agredido.

Paulo Franklin é professor

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