Inteligência artificial como paradigma da modernidade

* Leonardo Boff
O tom geral da encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, é, de modo geral, positivo. Chega até a ver a inteligência artificial como um instrumento a serviço do ato criador de Deus. Mas dá-se conta dos riscos e ameaças que ela pode representar. Ao largo e ao longo de toda a sua exposição, lança a pergunta fundamental: que imagem de ser humano ela pressupõe e alimenta? Que tipo de sociedade quer construir? Não se trata apenas de verificar se seus efeitos são benéficos ou maléficos. Trata-se de identificar e submeter à crítica seus pressupostos antropológicos e sociais, verificando se melhoram ou não a condição humana e se introduzem uma maior justiça social em nível planetário.
A centralidade da razão como vontade de poder e de controle
Eu diria que a inteligência artificial comparece como a expressão mais alta do paradigma da modernidade. Seus pais fundadores, René Descartes, Isaac Newton, Copérnico, Francis Bacon e outros, colocaram como valor axial a razão. Mas não qualquer razão. A razão a serviço do poder como dominação de pessoas, classes, países (colonialismo) e, principalmente, da natureza. Famosa é a frase atribuída a Francis Bacon, o fundador do método científico: “devemos torturar a natureza como o esbirro faz com sua vítima, até arrancar-lhe todos os segredos”.
A razão foi logo traduzida em uma prática e, assim, deu origem à tecnociência, que domina a nossa história até os dias de hoje, encontrando seu point d’honneur na inteligência artificial.
Esta centralidade da razão (ratio e logos) serviu-se especialmente da física e da matemática, categorias válidas, mas incapazes de captar adequadamente a natureza dos seres vivos. Esse paradigma dificilmente integrou outras dimensões humanas, como a do coração (éros e páthos), que representam o mundo das excelências, do amor, da amizade, da compaixão, da ética e da espiritualidade.
Levada a seu extremo, criou seres humanos com uma espécie de lobotomia: tornaram-se insensíveis aos valores intangíveis, especialmente à compaixão para com os que sofrem, à observância dos direitos humanos, ao respeito e ao cuidado para com a natureza.
Para esses pais fundadores, o mundo natural não possui sentido em si, a não ser quando posto a serviço dos seres humanos. Da mesma forma, a Terra, que, na tradição dos povos, sempre foi tida como a grande mãe, a geradora de toda a vida, a Pachamama dos andinos e a Gaia dos modernos. Tais pensadores a consideraram apenas como uma res extensa, uma realidade extensa e um reservatório de recursos do qual se pode criar e acumular riqueza.
Esta cosmologia subjaz à inteligência artificial. Ela é a razão desencarnada e desgarrada do corpo, por isso, artificial. Também está desgarrada dos sentimentos reais, e não apenas virtuais, e das situações existenciais da condição humana, como a alegria, a tristeza, a decepção, o sofrimento e o amor, que exige presença real, a carícia e o afeto sensível, e não apenas virtual. Nisso reside a limitação de todas as plataformas de inteligência artificial. Elas podem falar do amor, suscitar, no usuário, sentimentos amorosos, mas não são elas que lhe enxugam as lágrimas, que garantem a fidelidade e a lealdade do amor real.
Há vários tipos de inteligência artificial, cada qual a serviço de certos propósitos. O Papa se refere às ameaças que elas podem representar, todas praticamente de domínio privado, ao menos no Ocidente. Neurólogos como Miguel Nicolelis têm observado que neurônios cerebrais estão sendo negativamente afetados pelo excesso de exposição às ondas eletromagnéticas. Steven D. Shaw cunhou uma expressão assumida pela comunidade científica: “a rendição cognitiva”.
Essa rendição significa que mais e mais pessoas renunciam a pensar por si mesmas, delegam à inteligência artificial o pensamento pessoal e se fazem seguidoras de seus comandos. Assim não o faz a inteligência natural, que é reflexiva, inclui a dúvida, a incerteza, a busca e o real, que oferece resistência e está continuamente mudando.
Politicamente, esta delegação pode permitir que os extremismos tomem conta da sociedade. Na linguagem do exímio intelectual francês Jacques Attali, “a barbárie poderá ser provável; o político” – afirma ele – “é como uma rolha flutuando à deriva na tempestade das paixões”.
Os riscos da inteligência artificial autônoma
Extremo risco representa a inteligência artificial autônoma, com seus bilhões e bilhões de algoritmos. Foram delegadas a ela decisões que escapam ao controle humano. Podemos delegar nosso destino sem renunciarmos à nossa liberdade de fazer o nosso próprio caminho? Essa é uma questão filosófica e antropológica da maior gravidade. Os humanos acabam renunciando ao que é intrínseco à sua humanidade: a liberdade de fazer a sua própria história.
Ela pode, internamente, tomar decisões que prejudicam porções da humanidade. No seu limite, pode considerar que a humanidade inteira ou grande parte dela representa um obstáculo à sua própria reprodução e ao seu desenvolvimento e decidir eliminá-la. Uma vez construída, dificilmente pode ser posta sob algum controle. Ela capta esse intento e se antecipa, montando as suas defesas.
Especialmente a inteligência artificial Palantir cabe aqui ser citada e também denunciada. Em seu lugar estava a Anthropic, cujo fundador é Dario Amodei. Uma das maiores plataformas, ela possuía alguns parâmetros éticos, a ponto de renunciar às duas solicitações feitas pela administração de Donald Trump, que a havia contratado: controlar o máximo possível a população norte-americana e fazer uso bélico dela. Ela se negou prontamente a esse uso.
Em seu lugar, entrou imediatamente a Palantir, a mais perversa de todas, pois sua meta não é tanto econômica, mas a de controlar o máximo possível populações inteiras e permitir seu uso para fins bélicos. Isso foi feito com precisão na Faixa de Gaza pelo Exército israelense e na guerra dos EUA contra o Irã.
Por este simples exemplo, podemos nos dar conta do que pode resultar da exacerbação da razão humana, separada da totalidade complexa e multifacetada do humano, a ponto de pôr a civilização e a vida em risco.
Mas cremos ainda na razoabilidade da razão, submetida a uma instância mais alta, à sabedoria existencial, que poderá impedir que a razão seja totalmente irracional ao construir um meio de autodestruição. A vida sempre se mostrou mais forte contra todos os ataques que, no processo evolucionário e histórico, se fizeram contra ela. Por isso, a esperança nunca pode ser abandonada. A alternativa a ela seria o suicídio, que jamais teria a última palavra.
Vale o esperançar de Paulo Freire, vale dizer, criar as condições e os meios para a esperança se tornar viável e vencedora. Que todas as plataformas de inteligência artificial estejam a serviço da vida e de sua expansão.
* Leonardo Boff, ecoteólogo, filósofo e escritor. Escreveu Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Vozes 1995/2015; em espanhol por Trotta, Madrid 1996, Dabar, México 1996
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