Quarta, 17 De Abril De 2024
       
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LOURIVAL BAPTISTA E O BARROCÃO DO ALEIXO


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Publicado em 23 de março de 2024
Por Jornal Do Dia Se


Lourival Baptista

 * Thiago Fragata
 
Lourival Baptista era “o médico das fábricas” de São Cristóvão, quando iniciou carreira política, como prefeito do município (1951/1954). Experimentou, na vida política, mandatos de deputado estadual (1947/1951), governador (1967/1970) e senador (1970/1995). Ele nasceu no dia 3 de outubro de 1915, na cidade de Entre Rios/Ba, e faleceu no dia 8 de março de 2013. Lourival Baptista chegou a Sergipe em 1943 e deixou sua marca, seu legado nas mais diversas obras e ações administrativas, que influíram, inquestionavelmente, no desenvolvimento do Estado. (1) Um dos fatos memoráveis da sua gestão como prefeito da cidade histórica foi o aterro do famoso Barrocão do Aleixo. Barrocão é uma grande barroca, nome derivado de barro assim como barranco e barroco. Barroca significa: a) cova feita pela enxurrada; b) despenhadeiro, grota, precipício. (2) Na São Cristóvão da minha infância, conheci barrocão como cratera feita pela água da chuva nas encostas dos morros e ladeiras. 
Encontrei um sinônimo curioso para barrocão numa crônica de Luiz da Costa Filho publicada no Correio de Aracaju, edição de 3 de março de 1907. Nela, barrocão é socovão. Ei-la: “S. Christovam é inteiramente uma ruína: suas casas empretecidas pelos phenomenos do tempo e pelo abandono dos homens, são como uma confusa multidão de sepulturas exóticas; suas largas ruas, rasgadas sem as considerações de uma medida de arte, todas deterioradas e muitas comidas em grande parte pelos terríveis socovões, semelham destroços de uma velha nau tão maltractada, que o mar teve arremessado baralhadamente à praia.”(3). O dicionarista Laudelino Freire esclarece o significado de socovão ou socavão: “subterrâneo por debaixo de uma casa” (4)
A cidade de São Cristóvão foi fundada em 1590 à beira de um rio. Temendo-se invasões, houve mudança de sítio. Já em 1607, a antiga capital de Sergipe D’El Rey se achava numa situação acropolitana, ou seja, com a sede burocrática assentada no Morro Una, atual centro histórico. Apesar da nova situação geográfica favorecer a resistência, a cidade foi invadida e conquistada pelos holandeses em 1637. Suas ladeiras sempre tiveram barrocões é o que se constata observando o solo arenoso que pouco ou nada favorece a fixação de calçamentos e/ou restaurações. O barrocão mais famoso e longevo na paisagem das encostas da ex-capital ganhou nome, tragou casas e igrejas, motivou promessas, desafiou governantes, inclusive Lourival Baptista. 
Durante 4 séculos, os barrocões de São Cristóvão deixaram a paisagem local como um cenário de guerra. O mais famoso foi o Barrocão do Zé Aleixo ou Barrocão do Aleixo. O topônimo originou-se do nome do capitão José Aleixo Benedito, morador que teve sua residência tragada, engolida, como também a Igreja de São Miguel. O militar faleceu no dia 23 de junho de 1837, mas o seu sobrenome Aleixo, que em grego significa “protetor”, “curador”, permaneceu como sinônimo de desastre, justaposto ao barrocão, que engole tudo em volta. Escreveu o Presidente da Província, Joaquim Bento d’Oliveira Junior, em 1873, que o Barrocão “já ameaçava, como um dragão, devorar a cidade invadindo já a mais bonita de suas praças.” (5) O “monstro” ameaçava sobrados e templos da Praça São Francisco e da Praça Matriz. E, por falar em dragão, uma efeméride que não posso esquecer é que, por volta de 1848, o Presidente da Província, Zacharias de Goes Vasconcellos, caiu junto com seu cavalo dentro do barrocão! 
No século XIX e nas primeiras décadas de XX, alguns governantes envidaram recursos e trabalhadores para extinguir e/ou barrar o raio crescente do temido Barrocão do Aleixo; e tanto engenheiros (como Sebastião Pyrro e Firmino Rodrigues Vieira) quanto leigos (como o padre Barrozo) coordenaram obras. A Resolução n.º 693, de 1º de julho de 1864, do Governo Provincial, autorizou obra do aterro do Barrocão “podendo despender a importância de 8 contos de réis.” (7) Um relatório do engenheiro Firmino Rodrigues Vieira, de 1866, apresentou um orçamento para obras de proteção do precipício e sua dimensão: “uma profundidade de 66 palmos (14,52m) e uma extensão de 1.140 palmos (250,80m), estando já muito próximo à Rua da Matriz.” (8) Em 1872, uma comissão foi composta para tratar especialmente do assunto, “podendo despender com o respectivo serviço até a quantia de três contos de réis (3:000$000).” Era formada pelo Barão de Estância, Sílvio Anacleto de Souza Bastos, José Gonçalves Barrozo, Francisco José Martins Penna Junior, e o tenente-coronel José Guilherme da Silveira Telles. Em seu relatório de governo, o Presidente da Província, Cypriano de Almeida Sebrão, informa que a verba estipulada pelo seu antecessor foi insuficiente e, por isso, “abriu o crédito de cinco contos de réis, completando assim a auctorização de oito contos de réis (8:000$000).” Não se sabe ao certo o porquê. O fato é que o padre Barrozo foi o mestre da obra. A ausência de alguém gabaritado despertou a opinião e a ira da sociedade. “Ele escavou a praça [São Francisco] e atirou terra no Barrocão, em cujo centro foi levantada uma monstruosa parede de pedra e cal, por entender o administrador a obra, a tal barreira, seria uma espécie de dique. Para construção, mandou vir pedras de antigas edificações em ruína: quartel de linha, artigos béllicos, frontispício das fontes da Una e da Bica da Conceição, Egreja de São Gonçalo e de São Miguel, esta junto do Barrocão.” Até mesmo uma lasca (oitava) do cruzeiro observado na Praça São Francisco serviu a empreitada, e, apesar de mandar finalizar a obra com uma “grande bica de taboas, muito larga e bem calafetada, a fim de receber as águas pluviais”, as pedras benzidas soçobraram no temporal de outubro de 1872. (9) A represa partiu-se, cumprindo o velho ditado: água mole em pedra dura…
Em fins do século XIX, nova intervenção, agora, tendo à frente o engenheiro Siqueira de Menezes, cumprindo ordens do governo. Ele “fez construir, no alinhamento da rua, um forte paredão com uma abertura semicircular que se communica com uma segura rampa cimentada por onde correm as águas sem causar o menor inconveniente. Esse proveitoso serviço livrou milagrosamente a Praça da Matriz de ser solapada”, reconheceu Serafim Santiago apesar da sua antipatia velada pelo conterrâneo. (10) Enquanto o governador (1911/1914) Siqueira de Menezes voltaria a tentar a resolução da problemática representada pelo Barrocão que dominava absoluto a cidade decadente.
O Barrocão lembrava o papa-terra, ente mitológico que tragava tudo a seu redor para seu centro, como areia movediça. Eram casas, igrejas, animais, e, por maior que fosse essa fúria destruidora, ele continuava crescendo para desespero da população. Quando o médico Lourival Baptista assumiu a prefeitura de São Cristóvão, em 1951, a ameaça secular, que era o Barrocão do Aleixo, estava plasmada nas retinas, memórias e configuração urbana do lugar. Ele perpassou incólume por intervenções governistas de 1864, 1888 e 1912, que tiveram engenheiros e padres envolvidos, visto que uns acreditavam na ciência matemática, outros aguardavam milagre. Consta que, na sua gestão municipal, a chamada Ladeira da Prefeitura recebeu calçamento (1954). Como preparativo para obra, os trabalhadores envolvidos aterraram um barrocão existente no sopé, era o menos famoso barrocão do Burburum. Na mesma época, o centenário Barrocão do Aleixo saiu da paisagem para entrar nas lembranças. Tratores, caçambas e equipamentos moveram terras e terras numa obra que irmanou dezenas de trabalhadores durante semanas até extinguir o seu abismo. O aterro, a benfeitoria foi festejada pela população como um feito heroico de Lourival Baptista. Relembrando metáfora lançada pelo Presidente da Província Joaquim Bento d’Oliveira em 1848, podemos considerar que a fera não cuspia fogo, apenas água de ribanceira, e que felizmente Lourival Baptista venceu o perigoso Barrocão.
 
*Thiago Fragata que é historiador, escritor e multiartista E-mail: [email protected] 
 
FONTES DA PESQUISA:
1 – BARRETO, Luiz Antônio. Personalidades Sergipanas. Aracaju: Typografia Editorial, 2007, (Lourival Baptista).
2 – HOLANDA, Aurélio Buarque de. Novo Aurélio: dicionário – século XXI. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, p. 274. 
3 – FILHO, Costa. S. Christovam: aspectos das coisas. Correio de Aracaju, 3 de março de 1907, p. 1.
4 – FREIRE, Laudelino. Grande e Novíssimo Dicionário da Lingua Portuguesa. Vol V. 2a. ed. Rio de Janeiro: josé Olympio, 1954, p. 4719.
5 – SEBRÃO, Sobrinho. Laudas da História do Aracaju. 2ª Ed. Aracaju: Gráfica J. Andrade, 2005, p. 204.
6 – SANTIAGO, Serafim. Annuário Christovense ou cidade de São Cristóvão. São Cristóvão: UDUFS, 2009, p. 129.
7 – Idem, p. 273
8 – Plano Urbanístico de São Cristóvão, Vol. 2. Salvador, UFBa, 1980. p. 155.
9 – Idem ibdem, p. 274. 
10 – Idem, p. 129.
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