As contingências merecem um senso inovador, perante as aflições, que assustam e ameaçam os valores universais do iluminismo e até da sobrevivência das criaturas terrenas* Manoel Moacir Costa Macêdo
Novos tempos. Realidade visível aos olhos dos comuns. Indispensável recorrer às teorias sofisticadas para enxergar a nova realidade. Respostas são aguardadas. Não se acolhem simplificações, fatalismos, destinos, blasfêmias e pecados, mas ações concretas. Para os crentes, “os tempos estão chegados”. Novo apocalipse na Terra. Para a ciência uma “mudança de paradigma”, com “crises e anomalias” do modelo vigente. Construções silenciosas nas rotas das sucessivas existências. A humanidade em transição na busca de novos rumos.
A complexidade exige metodologias sustentadas pelos diversos saberes, avaliações e conclusões robustas. Umas conhecidas, outras em experimentação. Algumas da formalidade acadêmica, outras informais e do “dever ser”.Destaque para aquelas em testes, além dos sentidos sensoriais, e da convencional materialidade.
As contingências merecem um senso inovador, perante as aflições, que assustam e ameaçam os valores universais do iluminismo e até da sobrevivência das criaturas terrenas. A solidariedade social está sob ataques e ameaças. Estamos próximos de sobrevivermos todos, ou seremos todos extintos.
Os indicadores dessa catástrofe são visíveis aqui e alhures, o contexto das dimensões sociais, ambientais e espirituais. Uns reconhecidos pelo estado-da-arte, outros ainda não. Inovação, tecnologia e inteligência artificial, presentes nas ferramentas do viver, algumas como armadilhas que carecem da compreensão de suas externalidades, a exemplo do controle e vigilância.
Ódio difuso, mentiras, intrigas, rupturas, armas, violência, restrições à liberdade e intolerância, ameaçam a coesão social. Epidemias criminosamente disseminadas por algoritmos viróticos, atacam a consciência e alteram as estruturas da civilidade. A humanidade ameaçada pelo medo, e prazeres efêmeros na chamada por alguns de “modernidade líquida”.
A mudança climática antrópica e os seus extremados efeitos abalam a sustentabilidade do planeta. A brutalidade dos conflitos causticam a vida no tempo contemporâneo. Dores, sofreres e incertezas, chegaram em nossos lares, locais de trabalho e ambientes de encontros. Um chamado urgente à reflexão do modo de viver, produzir e consumir. Os cuidados com a casa que nos acolhe, a Terra, não tem merecido o adequado acolhimento. Na lição de que “necessitamos apenas o necessário para sobreviver, e não o excesso”, fomos reprovados. Não são fatalidades, nem destinos e nem pecados, mas mereceres, do nosso livre-arbítrio, no tempo de transição, onde predomina a “conversão dos corpos, em objetos visíveis do poder”.
A obra “Brasil, Brasileiros. Por que somos assim?”, organizada pelos professores Cristovam Buarque, Francisco Almeida e Zander Navarro, trouxe robustas respostas à pertinente pergunta. O esperado é que, em breve, também sejam respondidas à urgente questão: “Por que estamos assim?”.
[BUARQUE, C.; ALMEIDA, F.; NAVARRO, Z., Brasil Brasileiros. Por que somos assim? Brasília:Fundação Astrojildo Pereira/Verbena Editora, 2017].
* Manoel Moacir Costa Macêdo é engenheiro agrônomo e advogado.


