METAMORFOSE NO CONVENTO SÃO FRANCISCO

* Thiago Fragata
São Cristóvão reúne um patrimônio cultural que desperta o interesse de pesquisadores/empreendedores do turismo, da arquitetura, das artes, do jornalismo, da história, etc. A cidade surpreende o mais absorto dos visitantes com seus templos centenários de paredes grossas. Não raro um simples detalhe analisado com esmero e cautela revela fatos impressionantes. Vejamos o caso da metamorfose da torre do Convento São Francisco, por exemplo…
O Convento da São Francisco, chamado nos seus primeiros anos de Santa Cruz e de Convento Bom Jesus, teve sua primeira fundação coordenada pelo frei Luiz do Rosário em 1657. O complexo arquitetônico atual (igreja, ordem terceira e convento) foi traçado e iniciado por Pedro Palácios, em 1693.A epopeia da sua torre começa na década de 1840, quando os religiosos notam as crescentes fendas no seu cume, agravada pelo peso e constante repique do sino. No relatório técnico do engenheiro João Bloem, de 22 de outubro de 1847, ele estima que o serviço, sob os auspícios da Diretoria de Obras Públicas da Província demandarão dos cofres públicos 2:000$000 (dois contos de réis). Valor não compulsado em razão da pouca arrecadação. Em 1848, Galdino Barbosa de Araújo, Diretor das Obras Públicas, informa que a obra está em andamento e pede liberação de 200$000 (duzentos mil réis) para salário dos trabalhadores. Porém, parte da torre desabou antes da sua conclusão.
O canteiro foi assumido pelo Imperial Corpo de Engenheiros, em Sergipe, presidido pelo tenente Sebastião José Basílio Pyrro. No seu relatório endereçado ao Presidente da Província Dr. Zacarias de Góes e Vasconcelos, de janeiro de 1849, Pyrro solicita assessoria de matemático e engenheiro civil para execução. Seu parecer técnico revela que a torre foi edificada sobre material decomposto e que três paredes são de “alvenaria de pedra e cal e uma de adobe”.(1) Fato descurado pelos engenheiros que estiveram à frente da obra. Das providências, fala da inviabilidade em despender recursos com aparelhos acessórios para escoramento parcial da torre, considerando melhor fundar a obra e reconstituí-la. Houve a demolição planejada da torre que anunciava um desastre de proporções imprevisíveis. Reconstituída, a nova torre não passou da altura do frontãopor precaução.
Em 1902 frades alemães chegaram à cidade, assumindo a paróquia de Nossa Senhora da Vitória.  Nessa década a torre recebeu sino de aço, também proveniente da Alemanha, que “levou à construção de uma torre pequena e leve de madeira, forrada de zinco”. (2) Os religiosos temiam que a base antiga não suportasse, inspirava pouca confiança, por ter desabado a antiga torre. (FOTO 1)
A cúpula de visível inspiração árabe, um contraste a arquitetura barroca, ofendeu todas as regras de estilo e da estética, porque as linhas da figura circular-cônica não harmonizavam com linhas e diagonais de quadriláteros e retângulos de base, “Idéia e obra são do irmão Frei Cipriano Schmidt”. (3)Em 1925, ano da publicação do Álbum de Sergipe, de Clodomir Silva, vemos quereferida torre conventual conservava o formato.(4)
Frei Ildefonso Raffant inaugura um novo capítulo na epopeia da torre. Ele traçou e executou uma torre alta, homenageando o Papa Pio XII, com anuência das autoridades do convento. O Governo do Estado, em nota oficial, considerou a obra “uma agressão à Arquitetura tradicional do importante monumento nacional” por considerar a obra ultra-moderna. Luis da Câmara Cascudo, famoso folclorista, esteve em Sergipe em 1951, ocasião que visitou a ex-capital. Voltando a sua terra, o publicou no Diário de Natal, de 12 de junho daquele ano, a respeito da torre de Raffant: “quebra a harmonia da cimalha do frontão barroco uma cúpula estranha e nova, posta na torre quadrada, exotismo gritante com o primitivismo das tochas ornamentais que foram conservadas”.(5) (FOTO 2)
Em 1942, quatro anos após sua fundação a Superintendência do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, hoje Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, procurou entendimento com os franciscanos a fim de reformular a torre bizarra, o que foi aceito desde que a ordem religiosa não despendesse os recursos da obra.
No contexto da Segunda Guerra Mundial (1939/1945) a torre de Raffant figurou em um caso funesto. Depois dos torpedeamentos de navios na costa sergipana, o governo de Getúlio Vargas abandonou a neutralidade e encaminhou força expedicionária a Europa a fim de combater o nazifascismo. A tragédia vista nas praias de Aracaju promoveu uma comoção nacional e consequente represália a estrangeiros, em especial aos alemães e italianos. A presença dos frades franciscanos de origem alemã insuflou a desconfiança do povo sancristovense. Em maio daquele ano a Polícia realizou diligência ao convento mediante a denúncia de que na torre “existia uma estação rádio-transmissora-clandestina”. (6) Mesmo não comprovando as suspeitas, o frei Eusébio Walter chegou a ser preso e os religiosos proibidos de ausentar-se da cidade. Não fosse a ação enérgica da Polícia o convento teria sido invadido e depredado por uma turba ensandecida.
Superado todos os empecilhos, a torre de Raffand foi demolida em 1962. surge a meia-torre arrematada nas extremidades por 4 cunhais,com telhado de 4 águas. (FOTO 3)O formato é tematizado no cartaz do I Festival de Arte de São Cristóvão, ocorrido em setembro de 1972. Por volta de 1975 o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) restaurou a torre, ocasião que removeu os cunhais. (FOTO 4)Como não apareceu documento revelando o formato original do convento, de 1840, sua torre permanece incompleta.
*Thiago Fragata é historiador, escritor e multiartista E-mail: thiagofragata@gmail.com
CRÉDITOS DA PESQUISA:  GRAU. Plano Urbanístico de São Cristóvão – 2. Salvador: UFBA, 1980, p. 106; 2 GRAU. Plano Urbanístico de São Cristóvão – 2. Salvador: UFBa, 1980, p. 180; 3 Idem; 4 SILVA, Clodomir. Álbum de Sergipe. Aracaju: Gov. do Estado de Sergipe, 1925, p. 280; 5 GARCEZ, José Augusto (Dir.) Luis da Câmara Cascudo em Sergipe Del Rey. Aracaju: Movimento Cultural de Sergipe, vol. IV-V, s/d, p. 42; 6 GRAU. Plano Urbanístico de São Cristóvão – 2. Salvador: UFBa, 1980.
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