Quem reagiu assustado ao peladão do MAM precisa saber do meu amigo John. Artista da fuleiragem, indiferente aos circuitos formais e os espaços convencionais de consagração, a alma liberta batizada John Eldon não está nem aí para os pitacos dessa gente odienta pautando o debate estético/político no Brasil do “golpe”. Tira a roupa onde bem entende. Não cansa a própria beleza com a caretice de seu ninguém.
Nu com a mão no bolso, um pé no desbunde e outro na arte de performance, John é daqueles que entendem o corpo como um território em disputa. Os meganhas não sabem, mas já passou muito janeiro desde quando o artista, ele mesmo, fez-se de palco e derivado da arte. Mostrar-se, colocar-se, deslocar-se na paisagem virou instrumento de uma reflexão privilegiada sobre o agora e o entorno – um dedo na ferida que, resta provado, ainda há de machucar as suscetibilidades de muita gente.
Aqui mesmo, em Sergipe, não falta quem se dispa de si mesmo, assumindo a veste de alegoria, feições alheias, ou nenhuma, para revelar o outro, iluminar os outros. Mycira Leão, Paula Barreto e Jonathan Rezende, para lembrar apenas os já citados por este diário, estão entre os corpos estranhos da cidade. Apenas por mero acaso não ganharam ainda a distinção duvidosa das campanhas reacionárias, a atenção do MBL.
Se toda nudez for mesmo castigada, meu amigo John está com os dias contados. Todo pra frente, exegeta de maluquices adormecidas na poeira das estantes, ele teve a coragem de se assenhorar do seu corpo, ex-colônia emancipada, e declarar a independência dos próprios sentidos e afetos. No seu umbigo, uma pátria de anarquia. A única norma é a do vento. (Rian Santos)


