Terça, 25 De Junho De 2024
       
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O CINE ITAPUÃ


Publicado em 11 de junho de 2024
Por Jornal Do Dia Se


Revitalização do cine Itapoã no Gama Lano Andrade/CB/D.A Press. Brasil

* Lelê Teles
Quando eu era criança, ouvia, na conversa da vizinhança, murmúrios sobre o cinema.
Não apenas sobre filmes, mas sobre o cinema mesmo. Sobre a experiência coletiva de ver um filme.
No Gama fora inaugurado, em 1963, o mítico cine Itapuã, uma das mais belas salas de cinema de Brasília.
Ao lado da minha casa morava o seo Carlos, um sergipano que criava galos de briga.
Ele era o gerente do cine Itapuã, e sua filha, a jovem Ivone, era a bilheteira.
Eu ficava tentado a descobrir o que era um cinema e porque falavam dele com tanto fascínio.
Até que um dia, curioso, me dei conta de que o cine Itapuã ficava ao lado do parquinho onde, aos domingos, meu pai me levava pra brincar.
Eu não via a hora de entrar naquele lugar.
Até que um dia, finalmente, me levaram.
Era semana santa e os filmes religiosos eram pra todas as idades.
Meteram-me numa roupinha de domingo, meti-me nas minhas congas novas e fui.
E foi, essa, a experiência mais fascinante de toda a minha vida.
O lugar era enorme, o teto altíssimo e as cadeiras, com forro de couro azul,  eram bonitas e confortáveis.
Nos sentamos.
De repente, apagaram-se as luzes e a sala mergulhou numa silenciosa escuridão.
Assustado, olhei pra trás e vi quando, de uma pequena abertura no alto, um feixe de luz rasgou o negrume.
Seu brilho forte resvalou sobre nossas cabeças e se esparramou na parede branca à nossa frente.
E, então, a mágica aconteceu.
Um plano aberto mostrava, num pequeno vilarejo semirrural, uma procissão católica, puxada a carro de bois.
Acostumado com a tevê de vinte polegadas, assustei-me com o gigantismo daquelas imagens.
O som era magnífico.
O filme era o clássico espanhol Marcelino Pão e Vinho, filmado em ’55  e dirigido por Ladislao Vadja.
A película contava a história de um garotinho órfão que fora adotado por doze frades franciscanos.
Peralta, o sacaninha botava o mosteiro de pernas pro ar.
Até que um dia ele se deu conta de que não tinha mãe.
E também descobrira, no sótão do mosteiro, um cristo crucificado.
Com pena daquele esquálido infeliz, Marcelino decide alimentá-lo com pão e vinho.
E, assim, ele dá vida à estátua.
 Em seguida, convence Jesus a deixá-lo ver a mãe, que já morrera.
Como um gênio de lâmpadas, o mestre atende ao pedido do garoto, botando-o para dormir.
E Marcelino nunca mais acorda.
Lembro-me de ter chorado e de ter ficado puto com Cristo que, a rigor, matou o menino que o havia ressuscitado.
No ano seguinte, eu tinha onze anos e fui ver o filme Pixote, de Hector Babenco.
Ao contrário de Marcelino,  pixote tinha a minha idade e se parecia muito comigo.
Era um molecote de nariz sujo, de quebrada, cria de encruzilhada.
Não fora mimado por frades, não se encontrara com cristo e vivia no inferno.
Conhecia o cárcere, puta, traficante, assassino e convivia com a violência policial.
Comeu o pão que o diabo amassou.
Apesar de tudo, tinha um coração bom, sorria o riso puro de uma criança e amava viver a vida.
Babenco humanizou aquele pequeno trapo humano, como quem ressuscita uma estátua.
Sem dúvidas o cine Itapuã criou em mim o fascínio pelas salas de cinema.
Porém, foi Pixote quem me fez amar o cinema.
Porque não era mais uma questão de ver a tela, mas de se ver nela.
Palavra da salvação.
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista
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