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O CIRCO CHEGOU


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Publicado em 06 de janeiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Lelê Teles

A chegada do circo, na minha quebrada, causava grande alvoroço na molecada de nariz sujo e pele acinzentada.
Do nada, brotava em meio à paisagem árida do gama, mágicas estruturas coloridas.
Debaixo da lona, saltavam trapezistas, malabaristas, mágicos, contorcionistas e chimpanzés pedalando monociclos.
Os mandrakes de canelas finas ficavam maravilhados ao ver aquela fauna exótica de intrépidos brincantes.
O anão gigante, a mulher barbada, o funâmbulo bêbado, o globo da morte, os palhaços atrapalhados.
Estávamos no final dos anos ’70 e metade dos ’80; época em que o gama ainda era uma cidade suja e violenta.
Quadras inteiras sequer tinham suas ruas pavimentadas.
A diversão da perifa era os golzinhos na rua, os campinhos de futebol, o parquinho, a prainha e as cachoeiras.
Outra forma de diversão era ver o rabecão remover corpos na rua: facadas, tiros, pauladas, pedradas…
Uma outra forma de diversão era dar pedradas, tiros, facadas e pauladas.
O circo surgia, então, como uma nave espacial que nos transportava para um lugar encantado.
Nessa época, o Gama recebia grandes companhias nacionais e internacionais como o circo Tihany, o circo Vostok, o Orlando Orfei..
As caravanas se instalavam em um terreno baldio ao lado do mercadão.
Porém, também havia espaço para os cirquinhos mais fuleiros.
Um dia, a minha quadra, 31 do leste, que era a periferia da periferia, recebeu um desses cirquinhos de lona furada.
Pelas ruas empoeiradas e esburacadas, uma rural sacolejava, com um alto falante no teto, anunciando as atrações.
Dentre elas, a grande novidade:
“Um incrível leão africano”, empolgava-se o motorista.
Ao ser anunciado, o sacana careteava e urrava para as pessoas: “ruaaaarrr”.
A molecada ensandecia.
Na verdade, aquele “incrível leão africano” não passava de um pobre e esquálido animal.
Famélico e magro como um faquir, a criatura se equilibrava sobre as patas raquíticas: a juba rala, o corpo cheio de brotoejas, o rabo fino.
Enquanto montavam a pequena estrutura, o miserável emitia um estranho urro, na madruga.
Mamãe, que não sabia nada de leões, mas conhecia as agruras da vida, dizia que aquilo era um grito de dor e fome.
Decidimos, eu e meus irmãos, jogar gatos e galinhas dentro da jaula.
Nunca mais ouvimos urros, e caímos nas graças dos circenses.
Assistíamos aos ensaios e ganhamos ingressos em troca de comida para a fera.
O treinamento do leão era sempre seguido de gritos de ordem e pancadas.
Na noite de estreia, no final do espetáculo, apagaram-se todas as luzes e anunciaram a entrada do felino.
O picadeiro foi circundado por um alambrado enferrujado e, lá dentro, chicoteando o ar, o domador, metido num colant dourado e acompanhado por uma rapariga de maiô, ordenava que o leão adentrasse o picadeiro.
A mulher tacou fogo em uns aros de bicicleta e o domador ordenou que o animal saltasse por dentro deles.
O leão balançou a cabeça negativamente.
Eu pensei, “isso vai dar merda”.
O cabra, contrariado com a insolência do animal, chicoteou o ar e espetou as costelas da fera com um bastão de ferro.
Puto da vida, o leão saltou com as patas dianteiras sobre o peito do domador.
O sujeito esparifou-se sobre o alambrado, que se desmontou.
O público, em desespero, saltou das arquibancadas.
O leão, mais assustado que nós, correu para a portaria e ganhou as ruas.
De repente, tínhamos um leão correndo por nossas ruas.
Ele na frente e a multidão atrás.
Vez ou outra, ele parava, olhava pra trás e careteava, a moçada subia em árvores, postes e afins.
Ele seguia e nós prosseguíamos em seu encalço.
De repente, aquilo virou uma brincadeira.
E rolou noite a dentro, até o animal se cansar.
Na manhã seguinte, a polícia apareceu e o leão foi levado ao zoológico.
Fomos lá, nos despedir dele.
De dentro das grades, como um bandido, ele olhava em volta até enxergar eu e meus irmãos.
Eu, canceriano, tinha lágrimas nos olhos.
Ele levantou uma das patas, como se me desse tchau.
E a careta que fez parecia um sorriso.
Ele reconheceu as mãos que o alimentaram.
Dois anos depois, pré-adolescente, eu entrei na arte da palhaçaria, pelas mãos do amigo Fernando Fernandes.
Tínhamos um trenzinho que saía da torre de tevê e dava um rolê por toda a esplanada dos ministérios e retornava.
Cada vagão tinha uma dupla de palhaços que animava a meninada.
Eu e minha namoradinha, Cibele, pintados palhaçamente, nos divertíamos enquanto divertíamos os outros.
Fernando vem, há mais de três décadas, fazendo dos palcos teatrais um circo.
Eu, por minha vez, me tornei aquele leão!
Um leão punk, e sigo metendo as patas nos peitos de qualquer sujeito que ouse me domar.
Palavra da salvação.

* Lelê Teles, jornalista e roteirista

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