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O DESASTRE CLIMÁTICO DO RIO GRANDE DO SUL NA PERSPECTIVA DIALÉTICA


Publicado em 30 de maio de 2024
Por Jornal Do Dia Se


A expressão de solidariedade do povo brasileiro a essa tragédia não será suficiente se permanecer limitada àquele estado,pois exige uma profunda revisão da postura nacional frente às necessidades de uma justiça climática e ambiental

 
* Manoel M. Tourinho; Manoel Moacir C. Macêdo; Gutemberg A. D. Guerra
 
Em artigo anterior, os mesmos autores se esforçaram para trazer à liça os efeitos climáticos no estado do Rio Grande do Sul – RS, decorrentes de fatores que merecem, pedem e exigem um debate dialético. Esses fatores são ao menos de três grandezas: político, tecnológico e social. Eles se cruzam para determinar os acontecimentos climáticos que se intensificam, ao tempo que reduzem na ocasião-ocorrência, oferecendo vidas ao “holocausto”. 
A expressão de solidariedade do povo brasileiro a essa tragédia não será suficiente se permanecer limitada àquele estado,pois exige uma profunda revisão da postura nacional frente às necessidades de uma justiça climática e ambiental. Como escreveram anteriormente, eles mostraram o Nordeste como contraditório. Na atualidade, seca e chuva abundantes ocorrem em todas as regiões brasileiras e com trágicas consequências. Muitos atribuem aos fatores derivados dos ciclos geológicos do planeta, fato que não se desmente, mas o encurtamento, é verdade, também não se pode negar, muito menos os efeitos na economia e na sociologia das populações.
Causas e efeitos dessas mudanças são sistêmicos, o que não é novidade para a ciência, muito embora os tomadores das decisões políticas não considerem essas interações. Insistem em formulações políticas monocráticas e unilaterais. Desde “O Manifesto Comunista de Karl Marx”, publicado em 1848, que a urbanização é tratada como fator de desarticulação social, marginalização e estimuladora de violência. A urbanização favorece a economia de escala e a acumulação rápida do capital, mas cria exércitos de reserva de mão-de-obra, ocupação de áreas inadequadas à moradia e, enfim, potencializa vítimas às mudanças climáticas. Na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, existem cerca de 400 áreas de riscos habitáveis pelas concessões políticas atuais. Várias cidades amazônicas, em número expressivo no estado do Pará, são sensíveis e sujeitas às inundações, a exemplo das várzeas, que estão sendo aproveitadas como fronteiras da expansão urbana e não há restrições ao avanço da urbanização na Belém insular.
As tecnologias empregadas no campo, na via do agronegócio, articulam-se sistemicamente com a urbanização e as correntes migratórias. O agronegócio ufana-se de que a participação do fator terra nas suas planilhas de lucro é residual. Para os seus representantes não se necessita de trabalho e de terra! Assim não se indica a reforma agrária que se torna uma questão apenas de movimentos sociais contestatórios e não do conjunto da sociedade. É um modo de produção, centrado no uso denso de tecnologias sintéticas. E o pior dos raciocínios da neutralidade: ela em si, a tecnologia, não afeta o meio ambiente, embora qualquer ribeirinho, camponês das várzeas, saiba que na Amazônia o assoreamento dos rios acontece pelo inconsequente uso da terra com tecnologias inapropriadas como as aplicadas nas terras altas, a exemplo da região conhecida como território do MATOPIBA – Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. No RS foi e não é diferente nem exceção, mas a regra do emprego desse modo intensivo em tecnologia rica em capital.
             Os dados temporais sobre a profundidade média da Lagoa dos Patos no RS, mostram o seu deterioramento. Igual situação é vista na bacia coletora do rio Pará, defronte à cidade de Belém. Quais causas maiores que o inadequado uso da terra, os efeitos no clima e nas populações ribeirinhas? Merece destaque atentar para o uso de tecnologias desenhadas para outros espaços geográficos e condições socioculturais, as quais não seriam também causas de tais desastres? As intensas chuvas no RS trazem, acima de tudo, um grande custo humanitário. Centena de mortes e feridos e mais de duzentas mil pessoas perderam as suas casas.
Avaliadores econômicos internacionais, dizem que a repercussão dos atuais acontecimentos climáticos extremos no RS afetará em larga proporção o setor agrícola gaúcho, repercutindo no aumento dos preços de alimentos como a soja, arroz, trigo e milho. É possível que o setor do agronegócio tradicional se dê conta, ainda que tardio, que “o feitiço pode virar contra o feiticeiro”, pois nenhum setor bolina tanto a natureza como o agronegócio haja vista a derrubada de matas, queimadas, aterro de fontes aquáticas, irrigação, eliminação e predação da fauna silvestre, construções de rodovias e ferrovias para transportes, desemprego, migração rural-urbana, estímulo à garimpagem predatória e poluidora dos ambientes e o aquecimento global, entre outros fatores na mudança climática.
A questão climática e suas consequências é um prato servido à mesa dos comensais agressores da natureza. A cada momento, pelos seus efeitos, somos convocados à consciência cidadã. Até mesmo as religiões humanistas em seus postulados nos convocam a refletir dialeticamente sobre a conscientização ecológica. Uma das exortações do Papa Francisco, na encíclica Laudate Deum de 2023, reza “às pessoas de boa vontade”, por um olhar humano sobre a crise climática, em que o crescente paradigma tecnocrático, a fragilidade das políticas e as motivações espirituais que desde a Laudatosi de 2015, clama pela fé para entender que “a responsabilidade perante uma terra que é de Deus implica que o ser humano, dotado de inteligência, respeite as leis da natureza e os delicados equilíbrios entre os seres deste mundo”. Amém.
 
* Manoel M. Tourinho; Manoel Moacir C. Macêdo e Gutemberg A. D. Guerra são engenheiros agrônomos, cristãos e respectivamente PhDs pela University of Wisconsin, Estados Unidos; University of Sussex, Inglaterra;e École des Hautes Éstudes, França. 
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