O drama das quadrilhas juninas

 

* Gilson Sousa
Há tempos quadrilha junina é sinônimo de alegria, diversão, comunhão de pessoas e, acima de tudo, tradição. Mas um inimigo poderoso colocou tudo isso em xeque neste ano de 2020. Algoz e sem limites, o Covid-19 aprofundou um drama nunca visto no meio junino de Sergipe ou de qualquer outro estado do Brasil. Por causa do isolamento social obrigatório e necessário, as quadrilhas juninas se desmancham em tristeza e incertezas que só aumentam essa dramaticidade. 
Não há mais ensaios, não há previsões de apresentações, não há planejamento e, em muitos casos, não há sequer empolgação. Isso porque, ao contrário do que muita gente pensa, quadrilha junina hoje significa um investimento financeiro alto e com muito pouco retorno. Em geral, os grupos que envolvem entre 50 a 100 pessoas nesta fase de ensaios, com início ainda no segundo semestre do ano anterior, já contabilizam gastos significantes com músicos, trajes provisórios, material técnico, transporte, alimentação etc. E nesse período a principal fonte de receita está na realização de bingos, rifas, venda de camisas, feijoada e eventos afins. Ou seja, tudo inviabilizado hoje.
É certo que por enquanto, após um mês de isolamento social como medida preventiva para evitar a propagação do famigerado coronavírus, não houve ainda anúncio oficial de cancelamento dos concursos de quadrilhas juninas em Sergipe. Todavia, dificilmente eles ocorrerão. Em Aracaju, atualmente, pouco mais de dez quadrilhas estruturadas compõem o cenário. No estado de Sergipe são cerca de 50 grupos. E quase todos participam efetivamente dos principais concursos espalhados pelo estado, dentre eles os da Rua de São João, Sesc Sergipe, Gonzagão, Centro de Criatividade, prefeituras municipais, além dos certames organizados pelas emissoras de televisão, Sergipe e Atalaia. 
Óbvio que quadrilha junina não é exatamente uma atividade econômica, e sim cultural, mas mexe muito com dinheiro. A festa, infelizmente, é sazonal. Mesmo num estado que se autoproclama ‘país do forró’, que poderia muito bem oferecer aos turistas um produto cultural de qualidade e valorizado o ano inteiro. Mas não o faz. Por essa razão, as quadrilhas juninas passam meses se preparando para apresentações somente no período junino. E como consequência, o retorno financeiro, quando vem, somente nesse período mesmo. 
Os editais para apresentação no Forró Caju, da Prefeitura Municipal, e na orla de Atalaia, do Governo do Estado, muito dificilmente serão colocados em prática este ano. Assim, praticamente desmancha-se uma cadeia produtiva que todos os anos aguarda justamente os festejos juninos para faturar mais um pouco. Nesta cadeia estão centenas de costureiras, músicos profissionais e amadores, lojas de armarinho, sapateiros, empresas de transporte e outros mais. E isso tudo, é claro, além de mexer com a economia local mexe também com o emocional de muitas pessoas. Há inclusive o risco de extinção de alguns grupos por falta de motivação quando se deixa de fazer o que mais gosta no período, que é dançar quadrilha.
Portanto, é possível perceber que o Covid-19 atingiu em cheio vários segmentos artísticos e culturais país afora, mas no caso das quadrilhas juninas foi praticamente um golpe mortal. Como dissemos, trata-se de uma atividade cultural de gasto elevado, sem qualquer ajuda prévia do poder público, e retorno financeiro mínimo. Em muitos casos, sequer cobre as despesas globais com trajes, músicos, deslocamentos e equipamentos para as apresentações. Então, que o vírus inimigo do forró se avexe em cair fora daqui. Queremos, e precisamos, ter nossa alegria junina de volta.
Gilson Sousa é jornalista.

* Gilson Sousa

Há tempos quadrilha junina é sinônimo de alegria, diversão, comunhão de pessoas e, acima de tudo, tradição. Mas um inimigo poderoso colocou tudo isso em xeque neste ano de 2020. Algoz e sem limites, o Covid-19 aprofundou um drama nunca visto no meio junino de Sergipe ou de qualquer outro estado do Brasil. Por causa do isolamento social obrigatório e necessário, as quadrilhas juninas se desmancham em tristeza e incertezas que só aumentam essa dramaticidade. 
Não há mais ensaios, não há previsões de apresentações, não há planejamento e, em muitos casos, não há sequer empolgação. Isso porque, ao contrário do que muita gente pensa, quadrilha junina hoje significa um investimento financeiro alto e com muito pouco retorno. Em geral, os grupos que envolvem entre 50 a 100 pessoas nesta fase de ensaios, com início ainda no segundo semestre do ano anterior, já contabilizam gastos significantes com músicos, trajes provisórios, material técnico, transporte, alimentação etc. E nesse período a principal fonte de receita está na realização de bingos, rifas, venda de camisas, feijoada e eventos afins. Ou seja, tudo inviabilizado hoje.
É certo que por enquanto, após um mês de isolamento social como medida preventiva para evitar a propagação do famigerado coronavírus, não houve ainda anúncio oficial de cancelamento dos concursos de quadrilhas juninas em Sergipe. Todavia, dificilmente eles ocorrerão. Em Aracaju, atualmente, pouco mais de dez quadrilhas estruturadas compõem o cenário. No estado de Sergipe são cerca de 50 grupos. E quase todos participam efetivamente dos principais concursos espalhados pelo estado, dentre eles os da Rua de São João, Sesc Sergipe, Gonzagão, Centro de Criatividade, prefeituras municipais, além dos certames organizados pelas emissoras de televisão, Sergipe e Atalaia. 
Óbvio que quadrilha junina não é exatamente uma atividade econômica, e sim cultural, mas mexe muito com dinheiro. A festa, infelizmente, é sazonal. Mesmo num estado que se autoproclama ‘país do forró’, que poderia muito bem oferecer aos turistas um produto cultural de qualidade e valorizado o ano inteiro. Mas não o faz. Por essa razão, as quadrilhas juninas passam meses se preparando para apresentações somente no período junino. E como consequência, o retorno financeiro, quando vem, somente nesse período mesmo. 
Os editais para apresentação no Forró Caju, da Prefeitura Municipal, e na orla de Atalaia, do Governo do Estado, muito dificilmente serão colocados em prática este ano. Assim, praticamente desmancha-se uma cadeia produtiva que todos os anos aguarda justamente os festejos juninos para faturar mais um pouco. Nesta cadeia estão centenas de costureiras, músicos profissionais e amadores, lojas de armarinho, sapateiros, empresas de transporte e outros mais. E isso tudo, é claro, além de mexer com a economia local mexe também com o emocional de muitas pessoas. Há inclusive o risco de extinção de alguns grupos por falta de motivação quando se deixa de fazer o que mais gosta no período, que é dançar quadrilha.
Portanto, é possível perceber que o Covid-19 atingiu em cheio vários segmentos artísticos e culturais país afora, mas no caso das quadrilhas juninas foi praticamente um golpe mortal. Como dissemos, trata-se de uma atividade cultural de gasto elevado, sem qualquer ajuda prévia do poder público, e retorno financeiro mínimo. Em muitos casos, sequer cobre as despesas globais com trajes, músicos, deslocamentos e equipamentos para as apresentações. Então, que o vírus inimigo do forró se avexe em cair fora daqui. Queremos, e precisamos, ter nossa alegria junina de volta.

Gilson Sousa é jornalista.

 

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