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O elemento consciente indispensável


Publicado em 28 de outubro de 2023
Por Jornal Do Dia Se


* Luciano Siqueira

Na década de 80 do século passado, pelo menos em duas oportunidades, João Amazonas sublinhou a importância decisiva do elemento consciente na transformação social.
Primeiro, na edição inaugural da revista Princípios, ao rebater a afirmação de um militante desistente, para quem o marxismo havia interrompido seu processo criativo e renovador. Uma melhor compreensão da relação entre a realidade objetiva e as forças subjetivas estava entre os temas de evolução teórica, segundo Amazonas.
Depois, no informe político ao 7? Congresso do PCdoB, ao assinalar elementos essenciais de agravamento da crise do capitalismo em contraste com o atraso relativo dos fatores subjetivos, combinação nefasta que dificultava avanços da luta transformadora de sentido estratégico no Brasil.
Um rebatimento ousado dessa abordagem se deu com a proposta da Frente Brasil Popular (PT-PCdoB-PSB) em torno da candidatura de Lula à presidência da República, em disputa com diversas candidaturas do centro democrático, do centro-direita e da direita que se fracionavam no primeiro turno.
De lá para cá muita água rolou por debaixo da ponte, desenhando maior complexidade ainda na realidade no mundo e no Brasil, assim como, no que diz respeito ao PCdoB, expressivos saltos qualitativos na elaboração teórica e na abordagem da situação política concreta, resultando em formulação programática que, de modo articulado, abarca o objetivo estratégico e a orientação tática para um presumivel largo período conjuntural.
Nos dias que correm, em que estamos prestes a celebrar os primeiros 12 meses pós vitória eleitoral sobre o bolsonarismo (principal fisionomia do neofascismo no Brasil), mostra-se a cada dia mais decisivo valorizar o elemento consciente, ao qual João Amazonas se referia, na abordagem da realidade concreta na perspectiva de vencer a transição atual para um novo ciclo de transformações de caráter progressista na sociedade brasileira.
Assim, no tempo presente, toda análise da situação política que se baste na superfície – mesmo bem concatenada e apoiada em fatos reais – faz-se perigosa justamente por não dar conta da dimensão dos problemas a enfrentar.
O exame da correlação de forças, por exemplo – elemento decisivo de uma tática consistente -, não pode se prender tão somente à peleja por uma maioria quantitativa no parlamento (necessária à governabilidade), aos primeiros resultados, significativos porém insuficientes, de políticas públicas socialmente compensatórias e ao anúncio de bons propósitos (ainda frágeis do ponto de vista orçamentário) no que diz respeito à retomada de investimentos em ciência, tecnologia e inovação e em infraestrutura e ao estímulo à revitalização das atividades industriais.
No meio do caminho tem uma pedra, melhor dizendo, uma montanha rochosa gigantesca – os fundamentos macroeconômicos ultra-liberais vigentes associados ao Estado nacional fragilizado e disfuncional – cuja superação entrelaça elementos internos com contingências internacionais.
Em suma, todo entusiasmo que não se assente na análise abrangente da complexa realidade concreta corre o risco de semear a ilusão entre os que têm por princípio e missão histórica lutar conduzidos pela razão.

* Luciano Siqueira, médico, membro do Comitê Central do PCdoB e secretário nacional de Relações Institucionais, Gestão e Políticas Públicas do partido, foi deputado estadual em Pernambuco e vice-prefeito do Recife.

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