O HIPOTÉTICO VALOR DA VIDA

* Vânia Azevedo
 
Duas tragédias estiveram em evidência na imprensa mundial no último mês de junho: de um lado os migrantes egípcios, sírios e paquistanesas em fuga a bordo de um barco pesqueiro; de outro, os cinco milionários ávidos pelo prazer de novas conquistas, a bordo do submersível Titan, em expedição aos destroços do Titanic.
Situações como as que aqui relatamos dão conta de que o mundo, reiteradamente, dá mostras do modus operandi estabelecido por um sistema cruel que segue movido pela disparidade de classe que tritura silenciosamente a dignidade do homem de forma impiedosa, onde a miséria é entendida como um caso perdido -realidade presente na vida daqueles predestinados à indigência e ao esquecimento. 
Nessa perspectiva, por vários dias a imprensa mundial centrou todos os esforços na cobertura do submersível Titan, que transportava os cinco milionários protagonistas de uma expedição às profundezas do oceano,extasiados com a possibilidade de chegarem aos destroços do Titanic. Tudo parecia perfeito, até tentarem retornar à superfícies em sucesso,transformando a tão badalada aventura numa desastrosa catástrofe que pôs fim às suas vidas. A partir daí o mundo acompanhou diariamente o esforço desvairado e multimilionário de algumas nações, empenhada sem resgatar os cinco homens perdidos no oceano. O esforço poderia ser entendido como absolutamente compreensível se naqueles dias uma outra tragédia não estivesse acontecendo à revelia das nações envolvidas.
Enquanto o mundo buscava cinco homens que escolheram se aventurar numa expedição milionária, aproximadamente 750 migrantes eram vitimados por um trágico naufrágio no litoral da Grécia,sob o olhar indigesto da guarda costeira, quando se arriscavam numa desesperada aventura fadada ao insucesso (face às perigosas condições da embarcação de pesca em que se encontravam),em busca de ajuda internacional.Diferente dos cinco homens, esses,infelizmente,não tiveram escolha ao embarcarem para uma viagem tão perigosa; visto que, esse legado a vida jamais lhes concedeu.
O infortúnio esteve com eles desde o início da viagem que já acontecia em péssimas condições: encolhidos no vão inferior da embarcação, impedidos de estirar as pernas ou mesmo se levantarem por falta de espaço, padeciam da falta de comida e banheiros, restando-lhes urinar no oceano após seis dias de viagem em condições subumanas. Contextos nitidamente díspares envolviam os tripulantes do submersível e dos migrantes paquistaneses, há de se convir. Porém, é o olhar da humanidade que nos chama a atenção quando percebemos que, para o mundo, a tragédia que chocou a todos envolvia os cinco milionários.
Entretanto, a ironia da situação residia no fato de que enquanto uma tragédia desse porte acontecia (talvez a maior no Paquistão), motivada pela crise econômica e política do país, o submersível transportava dois cidadãos paquistaneses(pai e filho) que se situavam exatamente no topo da pirâmide social do Paquistão -mais precisamente no outro extremo da miséria vigente. Evidentemente a mesa farta dos ocupantes do submersível certamente não chegou a rendeu qualquer preocupação enquanto a aventura projetada não apresentava problemas. O ambiente que os acolhia, tampouco chegou a ser problema algum para os tripulantes afortunados. E mesmo quando a adversidade se abateu sobre eles, forçosamente restou às suas famílias o conforto de saber que todos os esforços estavam sendo envidados para o resgate – esforços estes calculados em somas multimilionárias devidamente compatíveis com a soma total das fortunas ali reunidas.
Já os pobres migrantes, a estes restou apenas as forças que alguns ainda conseguiram reunir até que o acaso colocasse em seu caminho um barco para resgatá-los, enquanto viam tantos outros desaparecerem.E não tardou para a guarda costeira da Grécia tentar justificar o injustificável – quando não rebocou o barco com segurança evitando a morte de tantas pessoas. E enquanto compram o silêncio dos inocentes, inexoravelmente a vida segue aguardando o próximo barco para mais uma tragédia agendada.
Em suma, tragédias como essas continuarão acontecendo e,certamente, ainda veremos muitos barcos pesqueiros transportando esperança a naufragar,fazendo do oceano a última morada daqueles que jamais tiveram uma. Diante de cenários como esse, contrariamente ao entendimento do Dalai Lama quando diz que a compaixão é a única força que importa, nesse mundo em que vivemos, lamentavelmente, o dinheiro tem sido a força que prevalece.
 
* Vânia Azevedo é professora
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