* Moisés Santos Souza
Faleceu na quinta, 28 de agosto, o historiador e professor aposentado da UFS, Francisco José Alves (1957-2025). Era o “Chico Padre” como costumavam chamá-lo devido a antiga passagem no seminário, entre os anos de 1974 e 1978. A vida no seminário não o tornaria um religioso, mas essa passagem o levou a outro caminho: um “sacerdócio pelo saber”. Entre nós, Francisco foi um divulgador do saber e da pesquisa histórica para um público especializado ou não, a partir de oficinas metodológicas oferecidas, na maioria, gratuitamente aos interessados e na publicação constante de artigos nas mídias impressas e digitais do Estado.
Foi justamente através dos jornais, que eu, ainda aluno do ensino médio, tive o primeiro contato ao seu nome e sua produção. Nos jornais, ele escreveu saborosos textos sobre diversos assuntos de interesse histórico e cultural, a saber: compilações e indicações de fontes e bibliografias sobre a colonização de Sergipe; sobre os povos Cariri e aldeias indígenas em Sergipe nos séculos XVI e XVII; informações sobre os jesuítas e as “guerras de conquista” do território sergipano pelos portugueses; a toponímia dos lugares e municípios sergipanos; Lampião e o Cangaço; além de textos que tratavam do patrimônio e bens culturais de Sergipe. Inclusive, tratar sobre o patrimônio e defendê-lo, foi uma das suas inúmeras facetas. Neste assunto, comportou-se como um ativista. Fez cartas, sempre publicadas em jornais, dirigidas aos governantes e responsáveis por órgãos de preservação, denunciando e cobrando ações à favor do patrimônio cultural sergipano. Não satisfeito com o tratamento dado aos bens edificados tombados, criou e coordenou um grupo de defensores, para atuar na área de educação patrimonial e ações de atividade política para contribuir na proteção e conservação de nossos bens culturais.
Tive o prazer de conhecê-lo e ser mais um – entre tantos – aluno do mestre. Francisco foi meu estimado orientador e professor das disciplinas de Introdução à História e Teoria da História. Foi como aluno destas disciplinas, que tive contato a uma constelação de teóricos historiadores como Marc Bloch, Edward Carr, Lucien Febvre, Hayden White, Keith Jenkins, Carlo Ginzburg, entre outros.
Herdeiro de uma sucessão de importantes intelectuais e pesquisadores/as de Sergipe, em especial, Beatriz Góis Dantas, Terezinha Alves Oliva e José Silvério Leite Fontes, o professor Francisco formou uma nova geração de historiadores sergipanos em sua longa passagem de 35 anos como professor do Departamento de História da UFS. Entre seus orientados na graduação e no mestrado, destacam-se hoje os professores Dilton Cândido Maynard; Itamar Freitas; Péricles Moraes de Andrade; Janaína Couvo Aguiar, e tantos outros.
Nas últimas décadas, Francisco não levantou abertamente bandeiras políticas ou de militância. Odiava proselitismos. Preferia se preocupar e abordar determinados temas de aspectos políticos, sociais e de costumes, em alguns trabalhos de pesquisa. Inclusive, era progressista nas preferências e nas abordagens de determinadas questões em suas pesquisas historiográficas, mas era conservador nas suas escolhas políticas. Uma das contradições do homem público. Justamente, foi devido às suas posições políticas recentes, que andou afastando algumas pessoas em seu entorno.
A noticia recente da morte (sempre ela) arrefeceram os distanciamentos de ex-alunos, colegas e amigos. Queriam no último momento reconhecer o bom e qualificado mestre, devotado servidor do ensino público superior de Sergipe, o intelectual Francisco. Que é assim que deverá ser lembrado.
De minha parte, fica guardada na memória, o metódico, o generoso e cuidadoso professor, no seu zeloso sacerdócio do ofício de ensinar História.
*Moisés Santos Souza é graduado em História Licenciatura pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e professor da rede de ensino do município de Lagarto/SE


