O medo de amar é não arriscar

* Andrei Albuquerque

Nos anos 90 do século passado, eu achava engraçado quando um conhecido respondia em inglês às situações que vivenciava. Então, diante de um problema soltava um motherfucker!, entre outras expressões comuns aos estadunidenses que hoje vivem em uma espécie de autoritarismo em curso que tanto desdenhavam nos países por eles explorados e que podiam chamar de republiquetas.
Mais tarde, percebi que essas expressões de outra cultura indicavam algo acerca do nível de colonização cultural e mental a que estávamos submetidos, ao menos parte do planeta também estava.
Em algumas pessoas havia um forte desejo por se tornar um estadunidense médio, nem que fosse um ogro texano, mas no máximo seríamos um yankee de quintal, embora muitos ainda sonhem em viver como colônia do tio Sam. Assim, somos mais falados pelos outros e presos a discursos do que imaginamos em nossa vã e suposta autenticidade. Os discursos circulantes na cultura e na família atravessam nosso ser e determinam nossas performances mais do que acreditamos.
Em um documentário brasileiro de fácil acesso no Youtube, chamado “O silêncio dos homens”, vemos a dificuldade dos homens com o afeto, a paternidade e o cuidado com a própria saúde. Em um determinado depoimento, um sujeito transgênero – que em sua travessia passou do gênero feminino a se identificar como homem – declara que não podia mais chorar porque homem não chora, repetindo aquela máxima que ouvíamos nas ruas e nas famílias: “Homem não chora!” Como se fosse necessário para ser homem, ser macho, seguir algum roteiro predeterminado, rígido em seu corpo e em seu ser – de fato há um roteiro que marca os homens.
Todavia, não é sem efeitos que a rigidez afeta muitos homens gerando dificuldades afetivas que vão repercutir nas relações agressivas com as mulheres, os filhos e outros homens. Ao homem resta o medo de amar e a recusa de ir além de uma sustentação fálica dos lugares de poder que são aprisionantes. Assim, por meio da cultura, da família e de seu mito individual neurótico (sua “visão de mundo”) o homem passou muito tempo com extrema dificuldade para flexibilizar o seu lugar de pai, de amigo, de amante. Não podia chorar, no entanto implodia e explodia em atos agressivos e sofrimento psíquico.
A pornografia – que se tornou um vício na era das telas nas mãos de adultos e adolescentes – seguiria moldando e refletindo um roteiro sexual robótico mais comum ao homem. Aqui, quem imagina que sexo seria apenas prazer, pura satisfação biológica, esquece como o sexo é regulado pela religião e pela cultura.
O psicanalista britânico Darian Leader em seu livro “Alguma vez é só sexo?”(2024) relembra ao leitor e aos psicanalistas esquecidos que “o sexo tem a ver com muito mais do que sexo – tem a ver com história, a educação, a angústia, a culpa, a vingança e o amor. Quando supomos que ele é só uma questão de prazer e satisfação, deixamos de ver o que precisamos ver para repensar o que o sexo é e o que poderia ser.” Assim, na forma mecânica da pornografia haveria algum indicativo de uma fantasia masculina, um “roteiro sexual” para Leader, que imprimiria uma dificuldade com o feminino e o próprio corpo.
Não é incomum que um homem chegue ao divã padecendo de angústia por não se adequar quase que completamente a uma performance, a um comportamento e a um roteiro sexual que possam ser considerados de macho, o “quase que” foi proposital porque ninguém se reduz a um roteiro. No entanto, as mulheres também sofrem as pressões dos discursos da família e da cultura sobre como uma mulher deve se comportar na sociedade e em seu roteiro sexual. Por exemplo, uma cobrança severa sobre as mulheres é a da maternidade, segundo a psicanalista Vera Iaconelli, em sua obra “Manifesto antimaternalista”(2023), a maternidade foi vista como uma competência natural própria à mulher por ela ter a capacidade biológica de gerar um bebê, todavia não é obrigatória a relação entre gerar um filho e ocupar um lugar de mãe e de maternagem.
Contudo, há também mães que vacilam neste lugar e que nem por isso deixam de amar o filho mesmo sob todo o cansaço e as exigências para que uma mãe “padeça no paraíso” – enquanto a genitora lidava com a responsabilização total pelos filhos, ao homem era destinado um lugar de provedor, de arrimo de família, mas de difícil acesso afetivo.
O título “O medo de amar é não arriscar” foi retirado de uma canção de Beto Guedes, intitulada “O medo de amar é o medo de ser livre” em que compositor fala que amar implicaria uma recusa ao poder que, em nossa interpretação, seria no sentido de vacilarmos um pouco no lugar rígido das nossas posições sociais e neuróticas. Arriscar a suspender um exercício de poder para que possamos escutar a perspectiva do outro, mesmo que o mal-entendido seja a essência da comunicação, e amar de algum modo a esse outro que não se resume a um roteiro, a uma marca de colonização.

* Andrei Albuquerque, psicanalista e psicólogo. Mestre em psicologia social/UFS. Publicou 2 livros, artigos e textos em jornais.

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