O mundo do cinema a partir de Cardinale e de Bardot

* Paulino Fernandes de Lima

O ano de 2025 nos deixou lutos valiosos na Sétima Arte, tendo, coincidentemente, levado duas estrelas representantes do Cinema ítalo-francês, atuantes numa época ainda áurea.
Em um lapso temporal de pouco mais de três meses, morreu Claudia Cardinale e, no último domingo, o adeus foi dado à Brigitte Bardot. A semelhança entre essas artistas vai além dos padrões de beleza típicos da arte cinemtográfica, pois estão presentes também em suas trajetórias pessoais, consequentemente nas influências que exerceram sobre comportamento social e convicção política de uma época.
Entretanto, como esses aspectos já vêm sendo explorados, após suas mortes, de forma saturada mundo afora, preferimos focar um pouco na essência das atrizes, que consiste na carreira artística em si, até para fazer jus à veia de cinéfilo “de carteirinha”, que confessadamente, assumo possuir.
Sem a vestimenta daqueles fãs alienados, atendo-se à vertente técnica em si, ouso dizer que Cardinale marcou mais pela densidade e versatilidade da interpretação; enquanto Bardot carregou a fama de romper com padrões de comportamento da época, que inevitavelmente integraram suas personagens.
Embora a beleza estonteante lhes seja outro traço em comum, o notável talento desafiou os que a viam apenas como estereótipos de um segmento revolucionário de padrões.
Cardinale, por exemplo, em “O Leopardo” (1963), revelou-se fundamental para traduzir a decadência da aristocracia siciliana, enquanto em “Oito e meio” (1963), contracenando com Marcelo Matroianni, ela surge como projeção onírica e idealizada do feminino.
Já em “Era Uma Vez no Oeste” (1968), impôs-se como protagonista feminina em um gênero tradicionalmente masculino, conferindo humanidade e complexidade ao clássico de western, dirigido por Sérgio Leone, com o pesado elenco masculino (Henry Fonda, Charles Bronson e Jason Robards), e sob a inesquecível trilha sonora do maestro Ennio Morricone.
Foi, sem dúvida, uma atriz que jamais se limitou ao arquétipo da beleza mediterrânea, escolhendo personagens atravessados por contradições, muitas vezes silenciados por estruturas sociais rígidas, o que lhe rendeu reconhecimento internacional, incluindo prêmios em Cannes, Veneza e Berlim, além de consolidar sua imagem como intérprete comprometida com a arte cinematográfica, e não apenas com o estrelato.
Bardot encarnava a ruptura, o escândalo e a liberdade dos costumes. Sua ascensão nos anos 1950 redefiniu o papel da mulher na tela, especialmente a partir de “E Deus Criou a Mulher” (1956), de Roger Vadim. Bardot não apenas atuava, mas instaurava uma nova linguagem corpora, desafiando convenções morais e cinematográficas.
Embora muitas vezes subestimada pela crítica de sua época, sua filmografia revela colaborações importantes, como com Jean-Luc Godard em O Desprezo (1963), quando sua atuação ganha contornos metalinguísticos e melancólicos.
Entre Cardinale e Bardot, o Cinema encontrou dois modos distintos de expressão feminina: uma voltada à profundidade dramática e ao compromisso estético; outra, à transgressão e à libertação simbólica.
Ambas deixaram marcas indeléveis, provando que o verdadeiro legado artístico não reside apenas na fama, mas na capacidade de refletir e transformar seu tempo.
O mundo do Cinema ficou agora mais órfão, contudo permanece iluminado por suas imagens eternas.

* Paulino Fernandes de Lima é defensor público pelo estado de Pernambuco

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