* Deborah Dias
O NORVERDE – Conferência e Feira de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste, realizado em Aracaju nos dias 27 e 28 de agosto, nasceu do desejo de colocar em evidência algo que a prática já comprova: o Nordeste é hoje o grande protagonista da agenda de sustentabilidade do Brasil. Essa afirmação não é retórica, mas sustentada por números e experiências concretas.
A região já é a que mais gera energia limpa no país. Abriga 24% das startups brasileiras, 17,5% dos ambientes de inovação voltados ao agronegócio. Vem registrando queda consistente no desemprego e crescimento no PIB, e lidera iniciativas estratégicas como a produção de biocombustíveis e o etanol do milho. O que especialistas apresentaram e concluíram no 1º NORVERDE deixa claro que o Nordeste não é promessa: é realidade.
No entanto, os estereótipos que ainda circulam na imprensa e no imaginário coletivo insistem em uma imagem ultrapassada. Quando se fala em Nordeste, ainda surgem palavras como “seca”, “pobreza” ou até caricaturas em torno do sotaque. Soma-se a isso a politização e o preconceito ideológico que, por décadas, serviram para inviabilizar vozes nordestinas e reduzir sua potência ao papel de dependente de políticas compensatórias.
Esse reducionismo, porém, não resiste ao contraste com o que vimos no 1º NORVERDE. O novo Nordeste já se projeta como referência em financiamento sustentável, bioeconomia, sistemas agroalimentares sustentáveis, transição energética e economia circular. É um território que combina biodiversidade, potencial humano e capacidade de inovação, tornando-se a base de soluções que o Brasil precisa para responder às exigências de um mundo em transição climática, tecnológica e social.
Em alguns estados do Nordeste – como Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte e Paraíba – mais de 20% dos migrantes retornaram à região, segundo dados do IBGE. Esse movimento sinaliza uma inversão histórica: aqueles que antes partiam em busca de oportunidades, agora regressam ou escolhem permanecer, fortalecendo a mão de obra local.
Sergipe, em especial, já ocupa essa posição de vanguarda. O estado vem se destacando por iniciativas inovadoras na gestão ambiental, por meio da educação e de políticas que integram sustentabilidade e desenvolvimento econômico e por atrair investimentos em energias renováveis. Ao sediar o 1º NORVERDE, Sergipe não apenas abriu espaço para o diálogo regional, mas também se afirmou como referência nacional no caminho para uma economia de baixo carbono.
A principal conclusão do encontro foi inequívoca: é preciso mudar a narrativa. Se continuarmos descrevendo o Nordeste pelo retrovisor, condenaremos a região a carregar um passado que não corresponde mais ao presente – e muito menos ao futuro. O contrário também é verdadeiro: se governos, empresas, a academia e, sobretudo, a imprensa passarem a reafirmar as potencialidades já consolidadas, o Nordeste será reconhecido pelo que efetivamente é – a vanguarda do desenvolvimento sustentável do Brasil.
O NORVERDE plantou essa semente em Sergipe: a de um movimento coletivo pela transformação da narrativa. A região já mudou; cabe agora a todos nós mudar o discurso. O futuro sustentável do Brasil começa no Nordeste, e está na hora de todos afirmarmos isso em uníssono.
* Deborah Dias, Secretária de Estado do Meio Ambiente, Sustentabilidade e Ações Climáticas do Estado de Sergipe e Rodrigo Cordeiro, Diretor da NESTY’, realizadora do 1º NORVERDE


