O privilégio da América Latina

Hoje somos, junto com o México e o Uruguai, os únicos países que fortalecem a democracia e privilegiam as políticas sociais, para diminuir as exclusões sociais e as brutais desigualdades que ainda sobrevivem

* Emir Sader

A América Latina foi mais uma região dominada e explorada pelos colonizadores europeus, entre tantas outras regiões do mundo.
Eles vieram, com a bíblia numa mão, a espada na outra, para imporem seus interesses e seus valores. Ficaram escandalizados com a nudez e a promiscuidade das populações nativas, chamadas de “indígenas”. Trataram de impor seus modos de vida e sua religião.
Durante pelo menos três séculos predominou a colonização. Os processos de independência, no começo do século XIX, apenas transferiram a dependência da esfera de dominação inglesa para a norte-americana.
Só no começo do século passado, a história latino-americana começou a ter relevância. O massacre da Escola de Santa Maria de Iquique, no norte do Chile, e a Revolução Mexicana praticamente deram início à nossa história. Uma revolução e um massacre, como ocorreria com toda a nossa história ao longo do século XX.
A fundação dos partidos socialistas e comunistas, no final da segunda década, deu expressão política à nossa história. E, posteriormente, o surgimento dos governos de Frente Popular, no meio da década de 1930, fez da América Latina a única região, fora da Europa, com esses governos antifascistas.
Já no final do século passado, em outra etapa histórica, a América Latina foi um continente dominado plenamente pelos governos neoliberais, em quase todo o continente, à exceção de Cuba.
Como reação, passamos a ser o único continente com governos antineoliberais. A partir daquele momento, a América Latina conquistou o direito de ser um continente privilegiado, no bom sentido da palavra.
Por tudo isso, os maiores líderes latino-americanos – Hugo Chávez, Lula, Rafael Correa, Evo Morales, López Obrador e Claudia Sheinbaum, Néstor e Cristina Kirchner, entre outros – transformaram-se nos mais importantes líderes políticos do mundo no século XXI.
A integração de vários países do continente nos Brics – a começar pelo Brasil – representa um processo, ainda em andamento, de reinserção, não subordinada, dos países latino-americanos no mundo contemporâneo.
Daí também a projeção do Lula como o líder político mais importante do Sul do mundo. E o nosso orgulho de tê-lo como nosso líder maior. E como maior de todos os brasileiros de todos os tempos.
Hoje somos, junto com o México e o Uruguai, os únicos países que fortalecem a democracia e privilegiam as políticas sociais, para diminuir as exclusões sociais e as brutais desigualdades que ainda sobrevivem.
Temos que ter orgulho de ser latino-americanos hoje, mas temos que intensificar e aprofundar a batalha para fazer com que essa tendência progressista seja predominante no nosso continente, contra as ainda sobreviventes correntes de direita e de extrema direita no continente.
O fortalecimento das correntes progressistas latino-americanas é o fortalecimento da democracia e da luta contra as desigualdades no mundo contemporâneo.

* Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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