Vânia Azevedo
Já se tornou comum sempre que chega o dia 8 de março, as reiteradas homenagens à mulher pelo seu dia. Porém, enquanto umas são homenageadas e têm o reconhecimento devido pelo seu trabalho, sabemos que inúmeras seguem vivendo a humilhante condição da dependência financeira que as tornam reféns da condição de subserviência e total dependência, sobretudo afetiva.
Como um experimento em fase de teste, a condição da mulher é colocadaà mercê daanálise daqueles que têm voz, econduzem no dia a diaum julgamento às questões femininas que nem sempre é dos mais justos: ao julgamento popular se junta a justiça (muitas vezes sob uma égide machista) por vezes injusta;o legislativopor sua vez, nem sempre preocupado com a criação de políticas públicas que venham minimizar a desigualdade; mesmo as leis já existentes, nem sempre são aplicadas com o rigor necessário que garanta a proteção da vítima; e a igreja, algumas ainda sobrevivem respaldadas nos princípios do velho testamento, que entende na mulher uma serva do homem, a dever-lhe total obediência.
Dada a ilogicidade da questão, a comemoração se repete ano a ano, para comemorar os pequenos passos conquistados pela mulher àquilo que naturalmente deveria ser um direito de todos. O dia é marcado para lhes oferecer flores, quando tudo que ela precisa é do efetivo cumprimento de leis contra o feminicídio; mensagens encantadoras, quando seria suficiente oportunidadesiguais de trabalho para homens e mulheres; oferecer-lhes bombons de chocolate, que por mais doce que sejam, jamais dissimularão o amargo gosto do desrespeito com que ainda são tratadas.
A rigor, o que realmente necessitamos é de uma mudança estrutural na sociedade em que vivemos. Mudanças que passem pelo seio da família, na formação do indivíduo, e transcendam os espaços de atuação. Necessitamos que as crianças encontre nos seus pais a melhor referência no trato com a mulher; que a mãe não seja vista como a empregada da casa, nem tampouco como alguém que perde em importância por ter como atividade principal o cuidado do lar e da família; que o emprego da mulher não perca em grau de importância por não se equiparar financeiramente ao do marido; que a formação profissional da mulher seja respeitada e esta não tenha que abdicar de sua opção profissional paraseguir o marido a título de obrigação; que o homem entenda que a mulher pode usar a roupa que ela quiser, e deve ser respeitada sob todos os aspectos, não havendo mais espaço para hostilização. Por fim, que o machismo seja definitivamente combatido e suas consequências punidas na forma da lei.
Todavia, é absolutamente imperioso que a própria mulher empodere-se do seu valor e não permita:a banalização dos maus tratos; que o prazer compartilhado na intimidade tenha um caráter de gratificação; que o assédio seja trivializado, contribuindo para a total destruição da sua autoestima; nem tampouco que as noites mascarem a crua realidade do dia.
Por fim, que a mesma força que a mantém resistindo aos maus tratos e humilhações diárias, lhe reconduza aos caminhos da transformação e ao resgate da autoestima e do autorrespeito, como regra de convivência diária.
Vânia Azevedo é professora.


