O VELHO DO RIO

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos

Impressionante como, em pleno século XXI, a ficção novelista ainda domina o imaginário popular. Definidora de comportamentos, de representações e de identidades, os folhetins televisivos seguem ditando práticas culturais, mentalidades, visões de mundo e ideologias. Não, não é mera coincidência! É a vida imitando a arte e estabelecendo padrões e norte de consciências. A novela é a mais nova e velha novidade da cultura brasileira, sob os auspícios da arte de da emoção.
Em 1990, a extinta TV Manchete (1983-1999) levou ao ar um de seus maiores sucessos de crítica e de público: a novela “Pantanal”. Com 216 capítulos e escrita por Bendito Ruy Barbosa e direção de Carlos Magalhães, foi eleita em 2016 pela revista Veja uma das melhores telenovelas de todos os tempos, ficando atrás apenas das grandes produções da Rede Globo.
Era uma época também de migrações de atores globais para outras emissoras, a exemplo de Cláudio Marzo, Cássia Kiss eNatháliaTimberg, sem falar no grande desempenho de Cristiane Oliveira no papel de Juma Marruá. Em linhas gerais, “Pantanal” traduz a vida e as histórias de vida da gente pantaneira, seus hábitos, costumes e valores. Com ênfase na natureza, a novela também ajudou no processo de conservação e uso racional do meio ambiente.
Trinta e dois anos depois, a Globo resolveu fazer um remake do grande sucesso da Manchete. Vale lembrar que esta mesma emissora fez pouco caso da história antes de ir ao ar em 1990, por pelo menos seis anos. Mesclando o elenco daquela época com jovens revelações, a “Pantanal” da Globo repetiu o mesmo sucesso e chamou a atenção do Brasil inteiro, com Marcos Palmeira no papel de Leôncio e a revelação Alanis Guilem como Juma Marruá.
Mas ninguém esteve mais entre os holofotes e do gosto popular que o personagem o velho do rio. Na primeira versão, coube ao ator Cláudio Marzo (1940-2015) revestir-se da áurea santa da icônica entidade, guardiã do bioma pantaneiro. Lendário, foi interpretado desta feita por Osmar Prado, que chorou copiosamente ao saber da escala. E não é para menos, pois o velho rio sintetiza aqui o que falta ao Brasil de hoje: rumo, serenidade e direção.
O país está doente e internado num manicômio. Carece, urgentemente, de identidade, pois a perdemos para a sandice desenfreada. Assim como o filme Avatar (2009), a nova versão de “Pantanal” segue sendo um grito do velho do rio para o cuidado com a nossa casa comum. Mais do que lucros em nome da ordem e do progresso, precisamos de sabedoria, vida em abundância e dignidade.
Dia 30 de outubro, iremos escolher entre o senhorzinho que gosta de arma, fala grosso e se diz homem de famíliae um ancião senhor da vida e da história. Entre a cafonice do ambíguo lema “Deus, pátria e família”, um combatente vencido pelo tempo, mas amado pelas massas, sedentas de paz, prosperidade e vida digna. Sua decisão está para além das margens do rio do Ipiranga, imersa na profunda nódoa da pátria/mãe “gentil”.

Compartilhe esta notícia