OS CAMINHOS DERESISTÊNCIA E EVOLUÇÃO DO FUTEBOLFEMININO DO BRASIL (I)

* Vânia Azevedo e Thauan Santana Fonsêca

Hoje, quando vemos o futebol feminino encantando a todos e levando torcedores aos estádios,é evidente que estão longe de imaginar os entraves que sempre acompanharam a árdua trajetória das mulheres no futebol brasileiro, quando estiveram proibidas da prática, no Governo de Getúlio Vargas, por entender ser o futebol um desportoincompatível com as condições da natureza feminina.
Ainda que o futebol feminino pareça algo recente, há indícios na história de que as mulheres em jogos com bola datem desde o tempo da Dinastia Han na China, antes dos anos 220 d. C. Há relatos, inclusive, de que já havia disputas de futebol entre mulheres, na Escócia, por volta de 1790, e outros de sua existência em 1863. Contudo, só em 23 de março de 1885 é que finalmente ocorre a primeira partida oficial do futebol feminino, em CrouchEnd, Londres, Inglaterra.
Embora a luta das mulheres não tenha merecido o protagonismo que o futebol masculino sempre teve, o arquivo que documenta o início do futebol feminino é referente a 1894, e foi liderado por NettieHonney, umabritânica, ativista dos direitos da mulher, que visualizou no futebol um instrumento de emancipação feminina que garantiria à mulher um lugar relevante na sociedade. Por sua iniciativa surgiu o “Ladies Football Club”, primeiro clube desportivo britânico para mulheres.
No entanto, foi no período de 1914-1918 (Primeira Guerra Mundial) que as portas se abriram para as mulheres no futebol feminino da Inglaterra, quando introduzidas não somente na força de trabalho (em substituição aos homens que se encontravam nos campos de batalha), mas inclusive nos clubes formados por eles nas fábricas onde trabalhavam. Porém, após a Guerra, os clubes ingleses devolveram aos homens o seu lugar de direito no futebol, decisão outorgada pela Federação inglesa, banindo as equipes femininas da prática do futebol no país.
Enquanto isso, no Brasil, por volta de 1920, não passava de uma atividade recreativa sem qualquer dimensão clubística. Pelo contrário, a atividade não encontrava boa aceitação por ser considerada violenta e sua prática ideal para homens. Ainda assim, a modalidade ganhava adeptas, e a imprensa, ainda que timidamente comece a apoiar. Até que em 17 de maio de 1940, em amistoso reunindo São Paulo x Flamengo no Estádio Pacaembu, as equipes femininas de Casino do Realengo e S. C. Brasileiro fazem o jogo de abertura, evento que rendeu grande visibilidade e acendeu o pavio da rejeição.
Como reflexo dessa partida a revolta se instalou em alguns segmentos mais conservadores da sociedade, e a imprensa passa a reforçar o discurso controverso dos ministérios da Saúde e Educação, atendendo reivindicação de terceiros, sob alegação de que tal prática esportiva afetava “seriamente o equilíbrio psicológico das funções orgânicas, devido à natureza que a dispôs a ‘ser mãe’”.O argumento popular desprovido de qualquer base científica foi determinante para a execução da sentença decretada em 14 de abril de 1941. Diante de tamanha polêmica, Getúlio Vargas, ao se ver sob pressão popularinstitui o decreto-lei (3199, art. 54) que proibia não apenas o futebol, mas todos os esportes considerados não-femininos (como beisebol, halterofilismo e as lutas) ou da “natureza da mulher”. A preocupação tinha cunho machista e só reforçava a tese de que a mulher foi feita com a função de procriar.
Contudo, passado algum tempo as mulheres seguiam jogando futebol e o subúrbio abrigava essa paixão. Em razão disso o decreto-lei ganha força em 1965, no governo militar, e novamente é publicado para coibir a determinação das mulheres de chuteira.Desta feita a deliberação é específica ao futebol, e acontece engendrada de motivação política autoritária, vindo a comprometer culturalmente gerações de mulheres que se viram excluídas e privadas dos benefícios que a prática desses esportes lhes proporcionariam.
De sorte que, a proibição institucional da prática de atividades esportivas para mulheres (com destaque para o futebol), foi responsável por um longo período de atrasos e retrocessos, excluindo-as oficialmente daquela que sempre foi a maior paixão do brasileiro: o futebol.

* Vânia Azevedo, professora aposentada da SEED e Universidade Tiradentes, ecritora; Thauan Santana Fonsêca, mestrando em História – UFRB

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