Everaldo Pinto Fontes, gaspeu.
A Igreja N. Sra. da Vitória completou 413 anos no dia 8 de setembro de 2021. Foi a primeira igreja construída em território sergipano, em 1608. Edificada pelos padres jesuítas, por ordem de Felipes da Espanha, para ser Sede Episcopal. É uma igreja que sofreu inúmeras modificações ao longo dos anos. Durante o período bélico, de 1637 a 1645, sofreu danos irreparáveis. A sua reconstrução foi praticamente uma reedificação. Em 1859 desabou, desde a entrada principal até o arco cruzeiro.
O frontão ostenta as armas dos Felipes (reis católicos) de uma forma descaracterizada e datas relativas a intervenções em 1855, 1837 e 1845. De grande volumetria, essa igreja dispõe de duas torres bem proporcionadas, guarnecidas por azulejos brancos, encimadas por galo português. Altares e retábulos, em madeiras esculpidas douradas, foram reconstruídos no início do século passado. O arco cruzeiro, guarnecido por dois anjos ao centro, segue a mesma decoração do altar-mor. Mais acima, encontra-se a imagem de São Cristóvão, em pedra calcária. Púlpitos estilo barroco com taça em cantaria. A Capela do Santíssimo Sacramento contém medalhão policromado no teto, provavelmente do século XVIII, e gradil em ferro trabalhado, de execução posterior.
Era costume, na Europa medieval, construir igrejas e castelos observando a rotação dos astros e a colocação de galos de bronze nas torres. Pelos laços brasileiros com os países europeus, os galos podem ser vistos aqui. Observamos também essas construções respeitando a orientação da rotação dos astros sobre a terra.
Mas, por que colocar um galo no topo da igreja? Em algumas tradições, o galo é responsável por afugentar os maus espíritos e as calamidades com seu canto. Também foi adotado como símbolo nos cultos, mas deístas, nos círculos secretos pitagóricos e, posteriormente, pelos romanos. Além disso, faz parte de lendas e milagres, como o “Galo de Barcelos”. Representa a virilidade, a bravura, a vida, a perseverança, dentre outros significados. Já para os cristãos, o galo é muito ligado às tradições natalinas – um exemplo é a própria missa do galo. Mas também representa a vigilância e o arrependimento de Pedro, e é nesse sentido que tal símbolo foi colocado no topo da Igreja Matriz. O galo representa o despertar da fé.
O galo é tido pelos poetas e trovadores como símbolo do alvorecer, do amanhecer de um novo dia, novo tempo de recomeçar, renascer. Simboliza também o vigilante que espera pela aurora. Os galos nas torres têm ainda uma finalidade social e meteorológica. Eles podem girar 360° em torno de si mesmos e, por seu desenho aerodinâmico, tem o bico sempre voltado para o lado de aonde vem o vento. Desta forma, indica a posição do vento, orientando os pescadores e navegadores. Segundo observadores mais curiosos, quando o bico do galo aponta para o nascente, leste, vem chuva na certa.
Como a igreja foi construída respeitando os movimentos dos astros, podemos observar que os galos, localizados um na torre norte e o outro na torre sul, demarcam o trajeto do meridiano que a terra percorre ao longo do ano. A Igreja N. Sra. da Vitória, em São Cristóvão, construída de frente para o leste, possui duas torres, e em cada torre encontra-se um galo. Sinônimo de uma Igreja Matriz, uma catedral.
Observa-se que, durante o movimento anual do planeta Terra ao redor do sol pelos meridianos, ocorre que no hemisfério Sul o sol se põe no inverno no extremo ao lado direito da torre norte, a noroeste onde teremos um dia de menos luz no ano. Podemos afirmar que é uma região menos iluminada durante o ano. Já durante o verão, no hemisfério Sul o Sol se põe no extremo sul, ao lado direito da torre sul. Podemos afirmar que durante o verão é uma região mais iluminada.
Observa-se que há duas datas anuais em que o Sol transita no meridiano localizado entre as duas torres, entre os galos. Essa é uma impressão, pois a Terra faz a rotação em torno do Sol. Essas datas são dia 22 de março, equinócio de outono, e 23 de setembro, com o equinócio de primavera (no hemisfério Sul). No equinócio, o dia tem a mesma duração que a noite. Vale lembrar que são os únicos dias do ano nos quais a parte iluminada do dia tem a mesma duração que a parte escura da noite. Os dias e noites são iguais em horas. Essa é uma observação em relação ao Sol, existindo outras observações em relação a outros astros.
Quando a Terra faz a rotação em torno do Sol e, na igreja, isso é demarcado pelos galos sobre as torres, observa-se que as leis naturais foram levadas em consideração e que os galos, como símbolo de vigilantes, estão alerta. Ademais, conta-se que a primeira vez em que um galo cantou à meia-noite foi exatamente na noite em que nasceu Jesus Cristo, num pequeno curral nos arredores de Belém. A Missa do Galo teve origem na província espanhola de Toledo, por volta do ano 400.
Everaldo Pinto Fontes, gaspeu. Professor Aposentado da Rede Municipal de Aracaju e da Rede Estadual de Sergipe, Ex-secretario de Educação do Município de São Cristóvão, ex-presidente da Fundação de Cultura e Turismo de São Cristóvão e ex-diretor da Diretoria Regional de Educação da Grande Aracaju (DRE-08).


