Os sinais que não foram vistos, as lições que se recusam a aprender

* Miguel dos Santos Cerqueira

 

A crise que assaltou o campo da esquerda, que recrudesceu com a debacle da antiga USSS, a partir de medidas adotadas, no período 1985/91, por Mikhail Gorbatchov, que ao contrário do que fez a China, que antes de reformular o político, revisionou a economia, adotando modelo aproximado àquela da NEP, dos primeiros anos da Revolução Russa; ele, Gorbatchov, desencadeou uma série de medidas complexas, as quais ensejaram a diminuição e fragmentação do Estado e ampliação dos poderes do mercado, sem capitalistas, as elites burocráticas e as máfias se apossaram dos despojos da revolução destruída por dentro.
Sendo que, ao cortar o poder monopólico do PCUS, que era o que mantinha coesa a Nação e o Estado, sem que nada tinha para substituí-lo, deixou um vácuo, precipitando assim a derrocada de toda estrutura da URSS e, em efeito domínio, das Repúblicas Populares do Leste Europeu, é essa crise que permanece até hoje. No espectro das Esquerdas, e por rebote, na geopolítica mundial.
Desde a queda da USSS, a esquerda tem andado na defensiva. Em seguida a derrocada da URSS, que se seguiu ao que se dizia ser o “fim da história”, isto é, o triunfo do ultraliberalismo, um movimento de mobilização da direita que chegou e foi crescendo de forma brutal. O consórcio construído entre imprensa, legislativos, conglomerados econômicos, acelerou a construção de um consenso que pavimentou a ascensão da direita, notadamente dos diversos fascismos.
É, mais que evidente que a debacle da URSS, deixou as esquerdas com dificuldades para entender o que aconteceu e ainda hoje a esquerda se encontra perplexa, com dificuldades para buscar saídas.
Mas uma coisa é certa, sem enfrentamento no campo ideológico, sem a retomada de um discurso claro que delimite a opção de classe, que demonstre as armadilhas dos apelos do mercado, da anarquia liberticida do capitalismo sem freios, sem que se desmascare as ilusões disseminadas pela direita econômica, o canto da sereia da precarização, sob o eufemismo de empreendedorismo, sem a retomada capacidade de mobilização popular, está se pavimentado o caminho para a barbárie.
A reviravolta teórica e programática que afetou todas as dimensões do projeto político das chamadas “Esquerdas”, que se acentuou com a queda da URSS, o abandonado das referências marxistas anteriormente vigentes, com a colocação em seu lugar, de elementos pós-modernos e liberais. É o que deixa a chamada “Nova Esquerda” presa do identitarismo, faz com que não veja que a crise geopolítica atual, aparentada daquela dos anos 1910 a 1920, é uma crise de hegemonia imperialista, e, que não obstante a orfandade de ideólogos e agitadores mundiais no campo da Esquerda, não há mais Lenin, Rosa Luxemburgo, Bukharin, Radek, sem os antigos Mencheviques e Socialistas de Esquerda a pensarem o mundo racional e criti camente, apontado as saídas, está prevalecendo tão somente o espectro da Direita e do Centrismo, que afinal e ao cabo levam ao mesmo lugar. É preciso sim tomar partido e retomar o prumo. Ser de Esquerda sim, pois Marxismo não é o mesmo que totalitarismo, Comunismo não é o mesmo que Stalinismo.
O abandono dos referenciais marxistas, as mudanças de governos, pautados na conciliação, sem mudanças estruturais, lançou as pessoas na acomodação e no entorpecimento, foi então se encaminhando um processo de consenso passivo, no qual as classes desfavorecidas, escanteadas, passaram a aceitar de forma resignada o jogo eleitoral.
É esse o resumo da ópera, com a restrição do espaço da política aos pleitos eleitorais e a política em si à administração do cotidiano, ou seja, com o predomínio da pequena política, diante da perplexidade das “esquerdas” perdidas no identitarismo, diante da crise por que passa a democracia liberal, a única força político-ideológica que tem se beneficiado é a extrema-direita, que se apresenta como única alternativa possível a um sistema tido como incapaz de representar interesses e expectativas de pessoas comuns desconfiadas de práticas e instituições políticas tradicionais.
De fato, há um vácuo no campo da esquerda, que diante da crise aparentada com aquela do início do século 20 até meados da década de 40 dos anos 1900, se vê órfã de lideranças, sem capacidade de contrapor-se de modo altivo e altissonante, iludindo-se com a consorciação com um chamado “centrismo”, esquecendo-se das relevantes lições da história, haja vista que tudo e tudo é sempre se resume à divisão internacional do trabalho, ao domínio das riquezas e recursos mundiais, a quem cabe fazê-lo e como, e também a luta de classes, tudo mais, embora deva ser contextualizado, trata-se de espuma, bola de sabão esvoaçante.

 

* Miguel dos Santos Cerqueira, Defensor Público. E-MAIL: sanctusmiguel@tera.com.br

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