Para Aracaju, uma reflexão

 

* Raymundo Mello
(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)
 
Celebro hoje – 17 de março 
– o aniversário de Araca
ju trazendo de volta para os caros leitores o último artigo publicado por meu pai – o ‘Memorialista Raymundo Mello’ – aqui no ‘Jornal do Dia’, na edição de 28/03/2017, dois dias antes do trágico acidente que lhe ceifaria a vida. O texto original foi encimado pelo título "Aracaju – 162 anos e 11 dias". São 165 anos agora. Mas parece que o artigo foi escrito para este aniversário, tal a reflexão que propõe. 
Boa leitura pra todos!
Assim escreveu Raymundo Mello:
– Este ano não quis escrever e publicar textos alusivos ao aniversário de Aracaju (162 anos). Nos últimos 8 anos fiz meus registros sobre o assunto que, em parte, foram publicados aqui mesmo no Jornal do Dia, lidos e comentados em emissoras de rádio, blogs (um, inclusive, fora do estado) e em TVs (algumas frases e referências).
Pensei esperar um pouco, ver calmamente como andam e andarão as coisas em nossa querida cidade; em resumo: "deixar como está para ver como é que fica".
Para minha surpresa, a estratégia não deu certo. Não deu pra ficar somente olhando e "vendo a banda passar cantando coisas de amor", especialmente, "a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim".
E não reclamei, nem reclamo. Ao contrário, até agradeço aos que a mim recorreram para falar sobre Aracaju, cidade que amo e onde vivo há 77 anos (1940-2017).
Prestei entrevista longa (59 minutos) ao rádio-repórter ‘Rozendo Aragão’, que a levou ao ar, integralmente, através da ‘Rádio Cultura de Sergipe’; em conversas de cerca de 10 minutos, a duas emissoras de rádio FM e, por igual tempo, "ao vivo", ao repórter ‘Valadão’, na ‘TV Câmara’.
Pra não entrar e sair sem reforçar o que com os repórteres conversei, ofereci a cada um cópia do artigo "Retrato da Menina Moça", publicado no Jornal do Dia em sua edição de 27 de janeiro de 2015, onde externei todo o sentimento de respeito e carinho que tenho por essa cidade, que vi crescer e continuo vendo, e torcendo para que esse crescer, crescer, não a faça perder o cheiro de sua meninice; ela não precisa superar Recife nem Salvador e muito menos Rio de Janeiro e São Paulo, cidades vovós (tudo acima de 400 anos).
Não! Aracaju precisa e deve manter essa graça que a rodeia; afinal, 162 primaveras marcam apenas uma parte pequena do tempo que ela tem a viver. Imagine o que ela será aos 462 anos. "Quem viver, verá", vasculhando o túnel do tempo, revendo gravações de sons e imagens deste século XXI e dos que virão a seguir.
Espero que tudo o que edita o nosso Jornal do Dia chegue em boa forma ao futuro e alguém de lá diga: "Vejam, um Raymundo, memorialista do século XXI, escreveu que queria chegar até nós. E não é que chegou?".
Repito: Quem viver (no futuro), verá. Um exemplo: o jornalista Valadão, da TV Câmara, recebeu, além da cópia do jornal com o artigo de 2015, um CD particular, de registro de uma canção linda, chamada "Cidade Menina" (Aracaju, é claro), feita nos anos 40, que o cantor ‘João Mello’ fez questão de garantir oficialmente a sua existência, canção de autoria de Ewerton Valadão, tio do repórter, que, segundo ele, sua mãe cantava, embalando-o para um bom sono – uma canção que, atualmente, tem mais de 70 anos que foi composta. Um acontecimento simples como este leva-nos a acreditar que a canção fica eternizada para os anos 2020, 2040, 2060, 2080, 3000, etc. Que assim seja!
No período que vivemos, a Igreja Católica celebrando a ‘Campanha da Fraternidade 2017’ sobre o tema "Fraternidade, biomas brasileiros e defesa da vida", com o lema "Cultivar e guardar a criação", não é possível homenagear Aracaju sem lembrar o que ela já foi e o que ela é hoje na área de conservação ambiental.
Atualmente, o que se faz, muito bonito e bem feito, diga-se de passagem, é encher espaços antes ocupados com árvores, aves, pequenos animais silvestres, vida, com belos edifícios, espigões de alto custo, apresentados em campanhas publicitárias caríssimas como o que há de melhor no mundo moderno.
Derruba-se o que a natureza produziu em anos e anos, edifica-se os sonhos de beleza e pronto. Uma, duas piscinas num condomínio com 200 apartamentos garantem qualidade de vida para os moradores. Será? E o esgotamento sanitário, como fica? E a recuperação dos bons efeitos que árvores, aves, córregos ofereciam, onde está?
Destrói-se o meio ambiente natural, edifica-se um artificial e o replantio de árvores fica pra depois e cai no esquecimento. Ora, cada um que cuide de sua área. Para que arborização urbana?
Não deve ser assim que se trata a natureza, penso eu, leigo em assuntos tão sérios, mas que sente na pele a ausência do conforto natural que se desfrutava.
Aracaju de hoje não é mais aquela dos anos 40, 50. Ela hoje é moderna, bonita. Quer árvores, muitas árvores, para dar guarita a passarinhos que sujam tudo em ruas e avenidas? Vá pro interior, procure por lá, como se a devastação do litoral, a destruição a qualquer custo da mata atlântica, não causasse problemas para o interior.
É preciso replantar a cidade, que precisa do natural, do ar purificado para sobreviver.
Sou dos anos 40 (até anterior a eles) e posso perguntar com segurança: onde estão as árvores que a cidade tinha, de metade de Aracaju até a Atalaia Velha? Daí do início da atual ‘rua Urquiza Leal’, do sítio do senhor ‘Odilon Porto’, até a Atalaia e dali até o Mosqueiro? Leste, oeste, sul de Aracaju.
Ah! É sentimentalismo. Saudosismo. Não é não! É um grito leigo que quer respirar e pensa que filhos, netos e bisnetos dos adultos de hoje também querem ou vão querer.
É preciso reurbanizar, replantar uma parte do que se destruiu. A hora é essa, já que no Brasil inteiro é moda falar-se em "qualidade de vida". Falar-se.
Por oportuno, registro o que ensinou o querido ‘Padre Cícero Romão Batista’, o santo do Juazeiro, aconselhando com simplicidade a cada um de nós, de ontem e de hoje, sobre preservação ambiental nordestina (Sergipe incluído, com Aracaju e tudo mais): "Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau; não plante em serra acima, nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não o arraste e não se perca sua riqueza; plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou de outra planta qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só; aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca".
* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br

"Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou de outra planta qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só; aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca"

* Raymundo Mello

(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)

Celebro hoje – 17 de março  – o aniversário de Araca ju trazendo de volta para os caros leitores o último artigo publicado por meu pai – o ‘Memorialista Raymundo Mello’ – aqui no ‘Jornal do Dia’, na edição de 28/03/2017, dois dias antes do trágico acidente que lhe ceifaria a vida. O texto original foi encimado pelo título "Aracaju – 162 anos e 11 dias". São 165 anos agora. Mas parece que o artigo foi escrito para este aniversário, tal a reflexão que propõe. 
Boa leitura pra todos!Assim escreveu Raymundo Mello:
– Este ano não quis escrever e publicar textos alusivos ao aniversário de Aracaju (162 anos). Nos últimos 8 anos fiz meus registros sobre o assunto que, em parte, foram publicados aqui mesmo no Jornal do Dia, lidos e comentados em emissoras de rádio, blogs (um, inclusive, fora do estado) e em TVs (algumas frases e referências).
Pensei esperar um pouco, ver calmamente como andam e andarão as coisas em nossa querida cidade; em resumo: "deixar como está para ver como é que fica".
Para minha surpresa, a estratégia não deu certo. Não deu pra ficar somente olhando e "vendo a banda passar cantando coisas de amor", especialmente, "a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim".
E não reclamei, nem reclamo. Ao contrário, até agradeço aos que a mim recorreram para falar sobre Aracaju, cidade que amo e onde vivo há 77 anos (1940-2017).
Prestei entrevista longa (59 minutos) ao rádio-repórter ‘Rozendo Aragão’, que a levou ao ar, integralmente, através da ‘Rádio Cultura de Sergipe’; em conversas de cerca de 10 minutos, a duas emissoras de rádio FM e, por igual tempo, "ao vivo", ao repórter ‘Valadão’, na ‘TV Câmara’.
Pra não entrar e sair sem reforçar o que com os repórteres conversei, ofereci a cada um cópia do artigo "Retrato da Menina Moça", publicado no Jornal do Dia em sua edição de 27 de janeiro de 2015, onde externei todo o sentimento de respeito e carinho que tenho por essa cidade, que vi crescer e continuo vendo, e torcendo para que esse crescer, crescer, não a faça perder o cheiro de sua meninice; ela não precisa superar Recife nem Salvador e muito menos Rio de Janeiro e São Paulo, cidades vovós (tudo acima de 400 anos).
Não! Aracaju precisa e deve manter essa graça que a rodeia; afinal, 162 primaveras marcam apenas uma parte pequena do tempo que ela tem a viver. Imagine o que ela será aos 462 anos. "Quem viver, verá", vasculhando o túnel do tempo, revendo gravações de sons e imagens deste século XXI e dos que virão a seguir.
Espero que tudo o que edita o nosso Jornal do Dia chegue em boa forma ao futuro e alguém de lá diga: "Vejam, um Raymundo, memorialista do século XXI, escreveu que queria chegar até nós. E não é que chegou?".
Repito: Quem viver (no futuro), verá. Um exemplo: o jornalista Valadão, da TV Câmara, recebeu, além da cópia do jornal com o artigo de 2015, um CD particular, de registro de uma canção linda, chamada "Cidade Menina" (Aracaju, é claro), feita nos anos 40, que o cantor ‘João Mello’ fez questão de garantir oficialmente a sua existência, canção de autoria de Ewerton Valadão, tio do repórter, que, segundo ele, sua mãe cantava, embalando-o para um bom sono – uma canção que, atualmente, tem mais de 70 anos que foi composta. Um acontecimento simples como este leva-nos a acreditar que a canção fica eternizada para os anos 2020, 2040, 2060, 2080, 3000, etc. Que assim seja!
No período que vivemos, a Igreja Católica celebrando a ‘Campanha da Fraternidade 2017’ sobre o tema "Fraternidade, biomas brasileiros e defesa da vida", com o lema "Cultivar e guardar a criação", não é possível homenagear Aracaju sem lembrar o que ela já foi e o que ela é hoje na área de conservação ambiental.
Atualmente, o que se faz, muito bonito e bem feito, diga-se de passagem, é encher espaços antes ocupados com árvores, aves, pequenos animais silvestres, vida, com belos edifícios, espigões de alto custo, apresentados em campanhas publicitárias caríssimas como o que há de melhor no mundo moderno.
Derruba-se o que a natureza produziu em anos e anos, edifica-se os sonhos de beleza e pronto. Uma, duas piscinas num condomínio com 200 apartamentos garantem qualidade de vida para os moradores. Será? E o esgotamento sanitário, como fica? E a recuperação dos bons efeitos que árvores, aves, córregos ofereciam, onde está?
Destrói-se o meio ambiente natural, edifica-se um artificial e o replantio de árvores fica pra depois e cai no esquecimento. Ora, cada um que cuide de sua área. Para que arborização urbana?
Não deve ser assim que se trata a natureza, penso eu, leigo em assuntos tão sérios, mas que sente na pele a ausência do conforto natural que se desfrutava.
Aracaju de hoje não é mais aquela dos anos 40, 50. Ela hoje é moderna, bonita. Quer árvores, muitas árvores, para dar guarita a passarinhos que sujam tudo em ruas e avenidas? Vá pro interior, procure por lá, como se a devastação do litoral, a destruição a qualquer custo da mata atlântica, não causasse problemas para o interior.
É preciso replantar a cidade, que precisa do natural, do ar purificado para sobreviver.
Sou dos anos 40 (até anterior a eles) e posso perguntar com segurança: onde estão as árvores que a cidade tinha, de metade de Aracaju até a Atalaia Velha? Daí do início da atual ‘rua Urquiza Leal’, do sítio do senhor ‘Odilon Porto’, até a Atalaia e dali até o Mosqueiro? Leste, oeste, sul de Aracaju.
Ah! É sentimentalismo. Saudosismo. Não é não! É um grito leigo que quer respirar e pensa que filhos, netos e bisnetos dos adultos de hoje também querem ou vão querer.
É preciso reurbanizar, replantar uma parte do que se destruiu. A hora é essa, já que no Brasil inteiro é moda falar-se em "qualidade de vida". Falar-se.
Por oportuno, registro o que ensinou o querido ‘Padre Cícero Romão Batista’, o santo do Juazeiro, aconselhando com simplicidade a cada um de nós, de ontem e de hoje, sobre preservação ambiental nordestina (Sergipe incluído, com Aracaju e tudo mais): "Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau; não plante em serra acima, nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não o arraste e não se perca sua riqueza; plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou de outra planta qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só; aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca".

* Raymundo Mello é Memorialistaraymundopmello@yahoo.com.br

 

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