
* José Carlos de Oliveira
Tenho muitas lembranças e tive bastante amizade do conterrâneo Pedro Siqueira, muito amigo do meu pai e dos meus tios, cuja alfaiataria/bar era vizinha à Casa Vitória, loja de autopeças de Pedro Siqueira, na rua Capitão Salomão.
Registro que, nos meus 11 anos de idade, meu pai me levava, depois da aula matinal, para estudar à tarde na alfaiataria/bar da família, o que me permitia acompanhar o que ocorria à frente da Casa Vitória, onde havia uma bomba de gasolina, também de propriedade de Pedro Siqueira, da então famosa marca Esso. Durante algum tempo essa bomba funcionava à manivela, pois a cidade não dispunha ainda de energia elétrica durante o dia, o que, por si só, era motivo de minha observação. Mas um dos momentos que me prendia a atenção era quando caminhões de entrega de combustível descarregavam tambores cheios de gasolina, que eram jogados da carroceria em cima de pneus, pulavam um pouco e a seguir caiam sobre os paralelepípedos que calçavam a principal rua da cidade, causando um forte ruído. Esse momento alterava a rotina dessa rua pois era presenciado por vários curiosos, como eu, como se fosse um evento de destaque! Recordo-me que Pedro Siqueira presenciava esses momentos com muita atenção e cuidado pois tinha a consciência de que trabalhar com inflamáveis requer muita atenção. Depois, esse Posto foi deslocado para as margens da BR-101, onde permanece até hoje sob o nome de Posto Esso Vitória que é gerido pelo seu filho Saulo Henrique.
Quando morava nos Estados Unidos, entre 1966-1971, Estância não dispunha de um sistema adequado de telefonia, o que me impedia de manter contato de voz com minha família. Assim me restava escrever cartas, cujos envelopes do correio americano tinham bordas com listras diagonais, em vermelho e branco. Meu tio-avô Oliveirinha, ao recebê-las, as colocava no bolso da camisa e ia à loja vizinha “cumprimentar” Pedro Siqueira na loja, mas o que ele queria mesmo era deixar Pedro ver o envelope no bolso para lhe passar a mensagem de que recebeu carta originária do sobrinho-neto lá dos States. Pedro percebia isso e dizia ao meu avô: “Já sei, tá todo feliz por ter recebido carta do José Carlos”. E ambos riam à vontade. Foi Pedro Siqueira que me contou isso tudo.
Pedro Siqueira foi quem também intermediou meu primeiro emprego, de carteira de menor assinada, aos 14 anos de idade, junto a Dr. Jorge Leite, para eu trabalhar no Salão de Fazenda da Fábrica Santa Cruz. Sempre lhe fui muito grato por isso.
Nas minhas idas a Estância, minha primeira visita era à loja ou à casa de Pedro Siqueira, fortalecendo cada vez nossa amizade. Em geral, ele me convidava para irmos juntos até à Fazenda Barro ou me presenteava com leite fresco tirado das vacas que viviam nessa sua propriedade.
Com o passar do tempo, achei que Pedro Siqueira se tornou um verdadeiro “embaixador” da cidade, pois muitos dos visitantes, em geral, sempre eram recebidos por ele, na sala da sua casa ou na sua loja. Ele era uma verdadeira referência na minha cidade.
Na minha memória, Pedro Siqueira, com sua esposa Dona Rosa e família, moraram sempre na Rua Capitão Salomão, primeiro na esquina com a atual Rua Agnaldo dos Santos e, depois, num sobrado ao lado da atual Lojas Americanas. Nessa rua, além de algumas lojas, bares e prédios oficiais, moravam muitas famílias de posses, residindo em sobrados ou em casas térreas. Não obstante, era uma via relativamente bem tranquila, cabendo aqui um outro registro relevante em termos de comparação de épocas, hábitos e vivência.
As famílias ali residentes tinham o hábito, muito típico de ruas de cidades interioranas, como vizinhanças de famílias amigas entre si que, nas noites nordestinas, colocam cadeiras à frente das respectivas casas para tomar um “vento fresquinho”. Assim fazia Pedro Siqueira, que era cumprimentado ou cumprimenta os que passavam à frente da sua residência, evidenciando assim como ele era tinha pessoas amigas na sua cidade natal, em que foi Vereador e Prefeito com tanta base popular.
Tal circunstância não mais existe há muitos anos em Estância. Durante os dias, a principal via urbana da cidade é tipicamente comercial, bem movimentada, com lojas, escritórios, bancos, prédios comerciais e oficiais, mas com relativamente pouquíssimas unidades ainda residenciais. Assim, durante as noites atuais e em dias de finais de semana, a rua Capitão Salomão é uma via apenas com movimento de alguns veículos e poucas pessoas transitando, mas sem famílias sentadas em cadeiras às portas das suas residências.
Pedro Siqueira, mesmo assim, jamais deixou de residir nessa rua, tornando-se dessa forma um personagem tipicamente representante dos heroicos e verdadeiros moradores dessa artéria urbana de Estância, talvez desejando que a cidade nunca perdesse sua característica de vida harmônica familiar e de preservação da memória e da vida dos nossos antecedentes.
Aproveito esse fato para lamentar o que está ocorrendo nos vários últimos anos no patrimônio urbanístico da nossa cidade com o desleixo, destruição, substituição dos sobrados e casas com azulejaria portuguesa de grande valor histórico que se concentravam na rua Capitão Salomão e em torno do Parque Orlando Gomes e da Praça da Catedral que revelam a identidade cultural de Estância. Várias desses imóveis estão crescentemente substituídas por construções focadas na funcionalidade, na valorização das formas geométricas puras e no uso de tecnologias industriais.
Quando Pedro Siqueira foi Prefeito de Estância, entre 1959 e 1962, eu ainda morava em Estância e me lembro de como ele era próxima do povo, com canais de comunicação direta, diálogos diários com os que o procuravam e, com base na sua experiência empresarial, fazendo uma responsável e eficaz administração da cidade. Um destaque era seu cuidado com a educação, não só apenas com a construção de várias escolas, por entender que o melhor instrumento de desenvolvimento individual e profissional é sem dúvida a educação. Ela amplia a dimensão humana e é um instrumento relevante para o desenvolvimento pessoal e cultural da pessoa e de uma sociedade, como também uma ferramenta que possibilita maiores oportunidades de crescimento profissional e de melhora da renda das pessoas.
Ele foi um estanciano da melhor qualidade, uma pessoa prestativa, muito humano e seu centenário deve ser lembrado com muita gratidão e orgulho pelos estancianos e moradores da cidade.
As homenagens que ora estão lhe sendo prestadas pelo centenário de nascimento de Pedro Barreto Siqueira são, assim, muito justas e merecidas, razão pela qual achei relevante fazer essa manifestação de reconhecimento, da minha amizade com ele e de momentos que guardo com carinho e agradecimento na minha memória. Que Deus o tenha em Seu Reino!
* José Carlos de Oliveira é pesquisador


