Portão aberto facilita a fuga de sete no Cenam

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Mais uma fuga aconteceu no Centro de Atendimento ao Menor (Cenam), em plena véspera do Dia das Mães. Por volta das 7h15 de sábado, cerca de sete internos conseguiram escapar da Ala 7 da unidade, considerada a mais segura da unidade e que abriga os adolescentes considerados de maior periculosidade. O grupo serrou as grades da ala e atravessaram o portão de acesso ao pátio, o qual, segundo o JORNAL DO DIA apurou, já estava aberto por causa da troca de plantão dos agentes socioeducativos. Os adolescentes ainda escalaram um muro, apoiaram-se em uma calha e passaram por uma falha aberta na cerca de arame farpado, acessando um matagal que fica no entorno da unidade. Não houve confronto com os agentes, que conseguiram segurar um dos fugitivos quando ele ainda escalava o muro.

A Polícia Militar foi acionada e fez um cerco na região com equipes da Companhia de Radiopatrulha (CPRp) e do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq). Três jovens foram recapturados pela PM e os outros três permaneciam livres até o fechamento desta edição. O incidente não provocou a rebelião dos outros internos – os quais permaneceram quietos em suas celas – e nem alterou o funcionamento da unidade, mas, segundo nota da Fundação Renascer, chegou a atrasar um evento de comemoração do Dia das Mães com participação das mães dos internos. Tal evento, apesar disso, "transcorreu normalmente", com direito a café da manhã, sorteio de presentes para as mães, apresentação teatral e mensagem religiosa do grupo de oração da paróquia São José Operário.

A notícia da fuga e a movimentação dos policiais causou muita apreensão em familiares dos internos, pois era dia de visita e muitos deles aguardavam o evento. Na porta do Cenam, os parentes se queixavam da falta de informações e pediam que o acesso aos adolescentes fosse liberado logo, o que aconteceu depois da situação ser considerada sob controle. Os três adolescentes recapturados foram trazidos de volta em uma viatura do BPChq. A mãe de um deles ficou bastante nervosa ao vê-lo, desmaiou e foi socorrida pelos outros parentes.

Eles reclamam que os menores tentam fugir por causa de maus tratos e agressões supostamente praticadas no dia-a-dia pelos agentes. No entanto, a versão dos educadores é outra. Segundo um deles, que preferiu não ser identificado, os próprios adolescentes se agridem em brigas praticadas entre eles e, "para não ficarem taxados como ‘dedo-duros’ e nem sofrer represálias, eles acabam atribuindo as agressões aos agentes". O resultado, de acordo com a fonte, foi "uma enxurrada de processos abertos na Justiça contra os agentes pelo Ministério Público", além das sindicâncias da Renascer. "E vale lembrar que nenhuma dessas denúncias de agressão ficou comprovada, mas mesmo assim os agentes estão sendo punidos", afirmou.

Outros problemas relatados pelo agente – e que segundo ele podem ter contribuído para a fuga de ontem – são a superlotação do Cenam, a falta de efetivo e a ausência de equipamentos de segurança para enfrentar situações de conflito, como fugas e rebeliões. Atualmente, 72 internos com idade entre 16 e 21 anos se apertam nas oito alas da unidade, destinada aos adolescentes já condenados pela Justiça a cumprir, no máximo, três anos de medidas socioeducativas. E para controlá-los, há um efetivo de até 19 agentes por turno, sendo nove servidores efetivos da Renascer e outros 10 terceirizados junto a empresas privadas.
"É muito difícil manter esse controle com pouco efetivo. Os agentes nem têm culpa nisso, porque nós não podemos usar armas. O uso da tonfa não está regulamentado para os efetivos e é praticamente proibido aos terceirizados, até por causa destas denúncias. E esses servidores vão às vezes sozinhos e sem qualquer equipamento até as alas para servir as refeições e outras tarefas. Eles vão com só a cara e a coragem", desabafa o agente, relatando ainda que a cerca de arame farpado no muro do Cenam está danificada "há cerca de um mês" e ainda não foi consertada, o que cria até uma rota de fuga para os menores.  

A diretoria executiva da Fundação Renascer enviou uma nota confirmando as informações sobre a fuga dos adolescentes, mas sem fazer qualquer referência às denúncias dos agentes socioeducativos. "A situação no Cenam está controlada e o fato será devidamente apurado", afirma a assessoria.

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